Entendendo o relatório do IPCC

16.08.21 | Joana Cruz, consultora da report e doutora em Geociências pela UFF, explica o que a ONU divulgou de mais importante sobre a emergência climática

O Sexto Relatório de Avaliação (AR6) do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), intitulado “Mudanças Climáticas 2021: a Base das Ciências Físicas” (em inglês, “Climate Change 2021: the Physical Science Basis”), é um alerta vermelho para a crise climática.

Elaborado pelo Grupo de Trabalho I do IPCC e lançado em 09 de agosto de 2021, o relatório traz o estado da arte do conhecimento sobre o sistema climático, com análises científicas das mudanças do clima.

Em fevereiro de 2022 será lançado o relatório elaborado pelo Grupo de Trabalho II, que abordará o impacto da mudança do clima na sociedade e ecossistemas, adaptação e vulnerabilidade.

O relatório do Grupo de Trabalho III, a ser publicado em março de 2022, analisará as estratégias de mitigação das mudanças climáticas.

O primeiro relatório, com 3.500 páginas, é assinado por 243 autores principais de 66 países e reúne 14.000 artigos científicos que embasam análises desde alterações históricas e paleoclimáticas a modelagens e projeções climáticas futuras.

Destaques sobre o aumento da temperatura global:

  • a influência humana no aquecimento da atmosfera, do oceano e do continente é inequívoca e inquestionável;
  • as concentrações de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) cresceram a níveis sem precedentes nos últimos 800 mil anos. As concentrações de CO2 aumentaram 40% desde o período pré-industrial devido a emissões provenientes de combustíveis fósseis e mudança de uso da terra;
  • a elevação da temperatura nos últimos 50 anos ocorreu mais rapidamente do que nos últimos 2 mil anos e a queima de combustíveis fósseis é o principal responsável pelo aquecimento do planeta em 1,2ºC;
  • as mudanças climáticas induzidas pelo homem não têm precedentes e estão ocorrendo de forma rápida, generalizada e ascendente, fazendo com que todas as regiões do globo já sejam afetadas por extremos climáticos e meteorológicos (ondas de calor, secas prolongadas, inundações, ciclones tropicais, etc);
  • alguns efeitos já são irreversíveis, como o derretimento de geleiras e a perda de biodiversidade, mas ainda há tempo de evitar os pontos de não retorno em escalas de tempo humanas, que causariam catástrofes ainda maiores;
  • o recuo das geleiras é o maior nos últimos 2 mil anos. Vale lembrar que o degelo faz com que menos luz solar seja refletida e também provoca a liberação de gases de efeito estufa, agravando ainda mais o aquecimento do planeta. Além disso, desacelera as correntes oceânicas, causando consequências para os climas regionais;
  • a taxa de elevação do nível do mar aumentou de 1,35mm/ano para 3,7mm/ano, aumentando a vulnerabilidade das zonas costeiras, principalmente os grandes estuários densamente povoados e com área de baixada, como é o caso das regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de Recife;
  • a única maneira de desacelerar o aquecimento é reduzindo as emissões de GEE a zero. Ainda assim, devido à inércia térmica do sistema climático, mesmo com emissões zero, a temperatura vai continuar a subir até 2050 em todos os cenários projetados para as emissões de GEE;
  • se o modelo “*business-as-usual*” persistir, as emissões continuarão a aumentar, e o mundo atingirá 2ºC de aquecimento possivelmente antes de 2050 e atingirá 3ºC antes do final do século, com consequências catastróficas.

De acordo com o secretário-geral da ONU, António Guterres, "o relatório deixa claro que não há tempo para atrasos e nem espaço para desculpas".

Torna-se urgente, portanto, que os tomadores de decisão, tanto da administração pública quanto da administração privada (desde empresas familiares a grandes corporações) assumam genuinamente o compromisso de implementar planos de emissão zero líquido.

Este compromisso precisa ter metas ambiciosas de redução de emissão com base na ciência (SBTi) e deve considerar também o metano e o óxido nitroso, não apenas o dióxido de carbono.

Em paralelo, a transição para uma economia de baixo carbono precisa ser acelerada e o principal foco deve ser a mudança da matriz energética, substituindo a queima de carvão mineral, petróleo (e derivados) e gás por energias renováveis.

O desmatamento precisa ser freado, isso não é novidade, mas a realidade no Brasil é de uma sucessiva quebra de recordes.

Não dá mais para continuar derrubando floresta para criar gado, não dá mais para sustentar uma dieta alimentar majoritariamente à base de proteína animal e também não dá mais para buscar uma transição alimentar baseada em vegetais e só ter fácil acesso a produtos enriquecidos de fertilizantes. Alternativas existem e a agricultura regenerativa pode ser uma saída.

Além disso, a sociedade civil (portanto, eleitores e consumidores) também tem um papel importante, cobrando projetos climáticos dos gestores públicos e escolhendo produtos e serviços que tenham incorporado estratégias de mitigação de impacto no clima.

Referências:

Site do Grupo de Trabalho I: https://www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-working-group-i/

Relatório completo AR6: https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/downloads/report/IPCC_AR6_WGI_Full_Report.pdf

Saiba mais sobre o tema:

Atlas interativo do Grupo de Trabalho I: https://interactive-atlas.ipcc.ch/

Infográfico com as previsões climáticas: https://climainfo.org.br/wp-content/uploads/2021/08/Previsoes-Climaticas-IPCC-Infografico.pdf

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