A agenda de uso sustentável da terra entra em uma nova fase. Se a degradação dos solos e a crise climática exigem ações de restauração, conservação e manejo sustentável em larga escala, viabilizar essas práticas depende de mobilizar capital e comprovar o impacto gerado com total transparência. É nesse ponto que a Neutralidade da Degradação da Terra (LDN), o financiamento sustentável e a gestão de dados socioambientais se conectam.
A realização da COP 17 da UNCCD (Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação), na Mongólia, reforçou a relevância estratégica da degradação da terra para temas como resiliência climática e segurança alimentar. O encontro também evidenciou a dimensão dos desafios de implementação, colocando em destaque a necessidade de ampliar ações de recuperação e uso sustentável da terra e de criar condições para financiá-las em escala.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição relevante, assumindo o compromisso de alcançar mais de 367 milhões de hectares até 2030, combinando o manejo sustentável e a prevenção, conservação e manejo sustentável da terra de 350,76 milhões de hectares com a recuperação e restauração de 16,34 milhões de hectares de terras degradadas. Uma meta dessa dimensão evidencia a escala do desafio brasileiro e a necessidade de mobilização de diferentes fontes de financiamento, entre elas estruturas de Blended Finance (Financiamento Misto), capazes de combinar recursos públicos, concessionais e privados para mitigar riscos e atrair capital em escala.
Na prática, o blended finance funciona como uma alavanca para viabilizar projetos que o mercado tradicional poderia considerar de alto risco inicial. Ao utilizar recursos públicos, concessionais ou filantrópicos para absorver as primeiras perdas e reduzir as incertezas, essa estrutura torna o investimento atraente para grandes fundos privados. É exatamente essa arquitetura financeira que viabiliza o aporte de capital em larga escala para a recuperação de solos degradados, a expansão da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e projetos de conservação, o que permite aliar retorno econômico à restauração ambiental.
Contudo, existe um importante gargalo na atração desse capital: a exigência por dados auditáveis e transparência de alto nível.
Grandes fundos globais, investidores institucionais e agências multilaterais não disponibilizam recursos sem a garantia rigorosa de que o impacto prometido será entregue. O financiamento sustentável moderno exige um novo padrão para o uso da terra. Isso significa que as empresas do agronegócio e do setor florestal precisam implementar e demonstrar:
- Rastreabilidade e origem: garantia da origem das matérias-primas, uso e ocupação da terra e conformidade socioambiental das áreas produtivas.
- Indicadores de Impacto Socioambiental: Métricas consolidadas sobre o sequestro de carbono, saúde do solo, governança e aspectos socioeconômicos
- Métricas Integradas de Biodiversidade: Indicadores quantitativos e qualitativos que comprovem a preservação ou restauração dos ecossistemas locais.
O Brasil tem em mãos a oportunidade de liderar a economia de restauração da terra. Mas transformar esse compromisso em vantagem competitiva também depende da capacidade de comprovar, reportar e prestar contas do impacto gerado no campo.
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