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Normas IFRS S1 e S2: a CVM recuou (por enquanto). E agora?

Empresas iniciantes, que iniciaram sua jornada agora ou que investiram na conformidade aos padrões devem avaliar o custo de voltar atrás; agenda IFRS tende a evoluir à revelia da agenda regulatória Por Guto Lobato, gerente executivo de educação na Report Quem acompanha o histórico das práticas de relato no Brasil reconhece dois movimentos nem sempre convergentes. De um lado, uma cultura de transparência voluntária, a partir dos anos 2000, com normas como as da Global Reporting Initiative (GRI). De outro lado, um movimento mais recente, que busca impor obrigações de divulgação financeira sobre sustentabilidade. Iniciativas como o Relato Integrado (<IR>) e o TCFD incentivaram esse caminho na década passada e, em 2023, a IFRS Foundation lançou as Normas IFRS S1 e S2 – que rapidamente passaram a ser adotadas em dezenas de países. O Brasil despontou como pioneiro nessa direção quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) divulgou sua Resolução 193/2023, que estabelecia prazos para companhias abertas publicarem relatórios baseados nas Normas IFRS S1 e S2. Entretanto, no apagar das luzes de maio, a CVM publicou a Resolução 244, que removeu o caráter mandatório desse processo. Na prática, quem se comprometeu no período de adesão voluntária deve seguir publicando por alguns anos; quem não começou não precisaria, por ora, se aventurar. Bastaria aplicar um “Pratique ou Explique” e justificar, em comunicado ao mercado, a decisão de não relatar. Esse modelo, contudo, é, na prática, um fracasso. Podia até fazer sentido uma década e meia atrás, mas hoje perdeu sua razão de ser. A reviravolta da CVM tomou muitos auditores, entidades da área contábil, consultorias e empresas de surpresa. A reação foi imediata: entidades como Conselho Federal de Contabilidade, IBFC e ANEFAC enviaram carta conjunta expressando preocupação à CVM. Organizações de mercado, como a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), afirmaram ver o recuo com preocupação; organizações da sociedade civil anunciaram que irão entrar com processo para revisar a nova resolução; e, questionada por veículos de mídia, a CVM se defendeu quanto à decisão, enquanto seu novo presidente diz estar aberto a discutir o tema outra vez no Colegiado do órgão. O próprio governo federal pressiona por uma reavaliação da medida. Mais recentemente, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) propôs um modelo de “convergência gradual assistida”, adiando por dois anos as obrigatoriedades, sem eliminar as exigências (que passariam a valer em 2028). A ideia do Conselho é “equilibrar o tempo necessário para adaptação das empresas com a necessidade de preservar a comparabilidade das informações e a credibilidade do mercado de capitais brasileiro.”. Mesmo sob escrutínio público, a revogação da obrigatoriedade deixa muitas companhias tentadas a tomar decisões de forma imediata. Seguir, voluntariamente, uma trilha de aprofundamento no disclosure climático e de sustentabilidade com viés financeiro ou apostar que o mercado não abraçará esta causa naturalmente? Não é uma escolha simples. E há ao menos três aspectos a considerar para tomar decisões de forma ponderada: a relevância e usabilidade da informação; as regulações que seguem ativas; e o desperdício de recursos que significa voltar atrás. Três pontos a considerar na hora de investir na jornada IFRS 1 – O primeiro ponto a ser ponderado na hora de decidir trilhar ou não uma jornada IFRS é a pertinência da informação desses relatos para quem toma decisões sobre seu negócio. O movimento de práticas reguladas de relato tem público-alvo claro: o mercado financeiro. Se nos relatos tradicionais a perspectiva tende a ser multistakeholder, nas divulgações de risco e oportunidade o foco é a necessidade do provedor de capital: investidor, acionista, fundos, instituições financeiras, credores. Coloque-se no lugar de quem decide em que empresa vale mais a pena alocar dinheiro. Riscos climáticos, hoje, podem ser omitidos ou divulgados superficialmente por uma companhia listada, como se não pudessem afetar as Demonstrações Financeiras? Na subscrição ou na concessão de crédito, seguradoras e bancos podem, hoje, ignorar questões ESG em um grande projeto de infraestrutura? Parece difícil haver espaço para recuos. 2- O segundo ponto a considerar: muitas regulações seguem ativas pelo mundo e, direta ou indiretamente, já afetam as relações comerciais e de controle acionário da maioria das empresas. No próprio Brasil, inclusive, há outras regras: se a da CVM está por ora suspensa, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional mantêm a Resolução CMN nº 5.185, que define compromisso para todas as empresas sob sua regulação reportarem com base nas Normas IFRS S1 e S2. O universo potencial total estimado pode envolver mais de 1,4 mil instituições autorizadas pelo Banco Central, com diferentes horizontes de tempo. Além dos países com regulações IFRS, há a Diretiva CSRD da União Europeia, cujas Normas ESRS exigem o reporte de questões de sustentabilidade na cadeia de valor. Ou seja: para quem negocia com companhias no exterior ou tem investidores de outras jurisdições, a pressão por informação financeira de sustentabilidade se mantém. Setores como mineração, petróleo e gás, siderurgia e agropecuário não têm escapatória: são provedores de matérias-primas e insumos críticos e, por força da relação comercial, serão cobrados a divulgar dados. 3- O terceiro ponto se liga ao investimento de tempo e recursos até aqui. Aderir ou não aos padrões IFRS não é para muitos uma escolha, e sim um processo já em andamento – cabe avaliar se o investimento até aqui será ou não aproveitado. A implantação de uma linguagem contábil de sustentabilidade grande desafio da jornada rumo à S1 e à S2; empresas de diferentes setores vêm ajustando processos internos, pondo em diálogo áreas de Sustentabilidade, Riscos e Finanças, repensando suas divulgações e instituindo novos comitês e processos de governança. A atitude pioneira da CVM, embora por enquanto neutralizada pela Resolução 244/2026, já induziu mudanças no mercado. Consultorias, auditorias e profissionais se prepararam, áreas inteiras foram estruturadas para o atendimento aos padrões. Profissionais de contabilidade e ESG têm se sentado juntos à mesma mesa de reunião. Cabe parar esse amadurecimento por conta da suspensão de uma das regulações? Independentemente das idas e voltas que sempre ocorreram na agenda de relato do

O armário que a sustentabilidade esqueceu

Estudo mostra que roupas guardadas por anos podem ser pouco usadas e que medir apenas a durabilidade das peças não basta para reduzir o impacto ambiental da moda Há um ponto cego recorrente nas discussões sobre moda sustentável. Fala-se muito sobre fibras recicladas, rastreabilidade, logística reversa, design circular e destino dos resíduos. Fala-se menos sobre o que acontece depois que a roupa entra no armário e, sobretudo, sobre quantas vezes ela de fato é usada. Um estudo recente conduzido por pesquisadores da KU Leuven e da Universidade de Utrecht ajuda a iluminar essa zona pouco examinada da sustentabilidade têxtil. A pesquisa analisou guarda-roupas de adultos na Flandres, região norte da Bélgica, por meio de visitas presenciais às casas dos participantes. Em vez de trabalhar apenas com declarações genéricas de consumo, os pesquisadores fizeram auditorias dos armários e coletaram informações sobre diferentes tipos de peças, ocasiões de uso, tempo de permanência, frequência de uso e lavagens. O resultado é um retrato incômodo para qualquer leitura simplista sobre consumo consciente. Em média, os guarda-roupas analisados continham 199 peças. Desse total, 27% não haviam sido usadas nos 12 meses anteriores. Apenas 5% eram peças de segunda mão. As mulheres tinham, em média, guarda-roupas maiores que os homens, 235 peças contra 158, mas a proporção de roupas paradas era semelhante entre os gêneros. A ilusão da gaveta cheia O dado mais relevante, porém, não está apenas no tamanho dos armários. Está na diferença entre possuir, guardar e usar. Segundo o estudo, uma peça é mantida, em média, por cinco anos. À primeira vista, esse número poderia sugerir uma relação relativamente duradoura entre consumidores e roupas. Mas a duração em anos esconde uma realidade mais complexa: a intensidade de uso varia enormemente conforme o tipo de peça e a ocasião para a qual ela foi comprada. Uma camiseta informal, por exemplo, é mantida por cerca de quatro anos, usada 33 vezes e lavada 18 vezes ao longo de sua vida útil. Já uma camiseta destinada a ocasiões formais permanece no guarda-roupa por cinco anos, mas é usada apenas nove vezes e lavada seis. Um casaco informal pode ser guardado por cinco anos e usado 136 vezes, embora quase nunca seja lavado. A distinção é decisiva. Uma roupa que dura muito tempo no armário não necessariamente presta muito serviço. Ela pode apenas ocupar espaço. Para avaliar o impacto ambiental de uma peça, portanto, não basta perguntar por quanto tempo ela existe. É preciso perguntar quantas vezes ela substituiu a necessidade de outra peça, quantas ocasiões de uso entregou e com que intensidade demandou lavagem, energia, água e produtos químicos. O limite das soluções verdes Esse ponto é especialmente importante porque parte significativa da agenda de sustentabilidade da moda ainda se apoia em soluções centradas no produto: melhorar materiais, aumentar durabilidade, facilitar reciclagem, ampliar a coleta de resíduos. Todas são frentes relevantes. Mas o estudo lembra que seus benefícios ambientais dependem de uma condição frequentemente ignorada: a redução dos volumes de produção e consumo. Uma roupa mais durável, se pouco usada, pode não resolver o problema. Uma peça de segunda mão, se comprada por impulso e abandonada no armário, também não. A circularidade, nesse caso, corre o risco de funcionar como uma camada de verniz sobre o mesmo padrão de excesso. A pesquisa mostra que a ocasião de uso é um fator central. Roupas formais são, em geral, muito menos utilizadas ao longo da vida útil. Vestidos formais aparecem entre os itens de menor intensidade de uso. Blazers e peças de alfaiataria também tendem a passar por poucos ciclos de uso e lavagem. Isso não significa que sejam irrelevantes. Significa que cumprem uma função social específica, muitas vezes associada a eventos raros, códigos profissionais ou expectativas de apresentação pessoal. É justamente aí que o debate ganha densidade. Se determinadas roupas são necessárias, mas usadas poucas vezes, talvez a solução não seja apenas fabricar versões “mais sustentáveis” dessas peças. Em alguns casos, pode fazer mais sentido discutir modelos de compartilhamento, aluguel, guarda-roupas coletivos, revenda qualificada ou serviços que reduzam a necessidade de propriedade individual. Mas o próprio estudo recomenda cautela. A reutilização só gera benefício ambiental se, de fato, aumentar o número de usos por peça e evitar novas compras. Se o mercado de segunda mão se tornar apenas mais uma via de consumo, sem reduzir o volume total de roupas adquiridas, seu potencial climático e ambiental diminui. Os diferentes ritmos do consumo Outro achado relevante é a existência de grandes diferenças entre grupos. Homens e pessoas mais velhas, em média, usaram suas roupas com maior intensidade. No agregado por participante, a mediana geral foi de 35 usos por peça. Entre homens, chegou a 45; entre mulheres, ficou em 25. No grupo acima de 55 anos, a mediana foi de 48 usos, acima dos grupos mais jovens. Essas diferenças não devem ser lidas de forma moralista. Elas apontam para comportamentos, pressões sociais e contextos de consumo distintos. A moda não é apenas cobertura corporal. É identidade, pertencimento, trabalho, gênero, desejo, status e convenção. Uma política eficaz para reduzir impactos precisa lidar com essa complexidade, em vez de partir da ideia ingênua de que bastaria informar melhor o consumidor. O estudo também chama atenção para a lavagem. Em média, os participantes relataram lavar as roupas após três usos. Peças usadas junto ao corpo, como camisetas e blusas, são lavadas com maior frequência. Casacos, por outro lado, podem ser usados dezenas de vezes antes de uma lavagem, quando são lavados. Como a fase de uso pode envolver consumo de água, energia e químicos, os ciclos de lavagem são parte importante da avaliação ambiental. Ainda assim, eles não servem como métrica universal: um casaco pouco lavado pode ser muito usado, enquanto uma peça formal pouco lavada pode ter sido simplesmente pouco vestida. A principal contribuição do estudo está em recusar uma única métrica. Tempo de posse, número de usos e ciclos de lavagem contam histórias diferentes. Só quando analisados em conjunto ajudam a entender o papel real de uma roupa

Rio Nature & Climate Week 2026 reforça o protagonismodo Sul Global na agenda climática

Evento reforçou a necessidade de acelerar soluções climáticas, ampliar mecanismos de financiamento e integrar biodiversidade, desenvolvimento social e transição econômica. A emergência climática, a perda de biodiversidade e a necessidade de acelerar a implementação de soluções estiveram no centro das discussões da Rio Nature & Climate Week (RNCW) 2026. Realizada entre os dias 1º e 6 de junho, no Rio de Janeiro, a iniciativa reuniu mais de 6 mil participantes de diferentes setores para debater caminhos capazes de transformar compromissos em ações concretas. Na abertura da conferência principal, o climatologista e pesquisador brasileiro Carlos Nobre conduziu a palestra “Emergência climática: desafios a serem enfrentados”, destacando os riscos associados ao limite de 1,5°C de aquecimento global. O especialista também alertou para os impactos da perda de biodiversidade nos biomas brasileiros e reforçou a importância de avançar em agendas como desmatamento zero, restauração florestal e fortalecimento da sociobioeconomia em territórios indígenas e comunidades locais. Ao longo da semana, representantes do setor público, empresas, academia, investidores e organizações da sociedade civil discutiram temas como justiça climática, transição energética justa, sustentabilidade empresarial, bioeconomia, adaptação climática e o papel estratégico do Sul Global na construção de uma economia de baixo carbono. Financiamento climático ganha protagonismo nos debates Paralelamente à programação principal, a RNCW contou com uma série de eventos-âncora dedicados a temas prioritários para a agenda climática e de biodiversidade. Entre eles, o III Fórum de Finanças Climáticas e de Natureza reuniu lideranças nacionais e internacionais para discutir caminhos capazes de ampliar a implementação de soluções em diferentes territórios. A equipe da Report acompanhou os debates, que abordaram desde a relação entre cidades e florestas até mecanismos financeiros voltados à adaptação climática e à proteção da biodiversidade. Entre os principais temas discutidos esteve a necessidade de ampliar instrumentos financeiros capazes de apoiar municípios vulneráveis, fortalecer projetos locais e reduzir riscos para investidores. Também ganharam destaque as discussões sobre monitoramento de dados climáticos, métricas de impacto e mecanismos de blended finance para atrair capital destinado a projetos nos países do Sul Global. “Durante as mesas-redondas, ficou evidente a disposição das instituições em avançar na implementação de soluções climáticas adaptadas às diferentes realidades do Brasil e do mundo. O consenso é que existe liquidez para financiar a transição. O desafio agora é transformar essa ambição em projetos bancáveis e conectados às vulnerabilidades e necessidades locais”, Leonardo Diniz, consultor de Sustentabilidade do Grupo Report, que esteve no evento.  O futuro da RNCW Em uma semana marcada pela pluralidade de vozes e perspectivas, a Rio Nature & Climate Week reforçou uma mensagem recorrente em diferentes agendas: enfrentar os desafios climáticos exige integrar soluções para clima, biodiversidade e desenvolvimento social. Os debates também evidenciaram o protagonismo do Sul Global na construção dessas respostas, valorizando o papel de comunidades indígenas, conhecimentos tradicionais e mecanismos de financiamento capazes de acelerar a implementação. Ao consolidar seu calendário até 2030 e ampliar sua presença em fóruns internacionais, a RNCW fortalece a posição do Rio de Janeiro e do Brasil como espaços estratégicos para o avanço da agenda climática global. 

O fim da sustentabilidade polida e a transparência sistêmica

A comunicação de sustentabilidade atravessa um ponto de inflexão. Durante anos, o padrão ouro do setor foi pautado por uma estética limpa, discursos suaves e a promessa de que pequenas escolhas individuais resolveriam crises sistêmicas. No entanto, esse modelo de “marketing educado” esgotou sua capacidade de gerar confiança. Conforme analisa Will Thacker em artigo recente para o The Drum, vivemos a década da confiança quebrada. Em um cenário onde governos, mídia e corporações são vistos com crescente ceticismo — mais de 60% do público acredita que líderes mentem intencionalmente —, a publicidade de sustentabilidade que tenta tranquilizar o consumidor soa, muitas vezes, como greenwashing. O gap entre o discurso e a realidade ambiental Enquanto a crise climática avança e sistemas industriais operam em escalas massivas de extração, muitas marcas ainda utilizam uma linguagem que remete ao conforto e à simplicidade. Termos como “escolhas conscientes” ou “fazendo a nossa parte” já não correspondem à gravidade dos fatos nem à percepção pública. O público, especialmente as gerações mais jovens, desenvolveu um radar apurado para inconsistências. Eles não buscam a perfeição publicitária; buscam a honestidade. Para esse perfil de consumidor, uma marca que admite suas falhas e expõe a complexidade de sua cadeia produtiva é muito mais crível do que aquela que apresenta soluções fáceis para problemas estruturais. Revelar em vez de suavizar: o papel da criatividade A nova fronteira da comunicação ESG não visa acalmar o público, mas sim revelar o sistema. Campanhas recentes, como as da The Woolmark Company, exemplificam essa mudança. Em vez de apenas listar dados sobre fibras sintéticas, a comunicação utilizou imagens viscerais, como pessoas mergulhadas em petróleo bruto, para tangibilizar o impacto de 350 milhões de barris de óleo usados anualmente na indústria têxtil. Essa abordagem crua transforma o invisível em concreto. Ela retira a sustentabilidade do campo das ideias abstratas e a posiciona no campo da realidade física, do resíduo e da extração. Do consumidor passivo ao participante ativo Para as empresas, essa mudança de tom exige coragem institucional. A sustentabilidade real envolve trade-offs (escolhas difíceis), dilemas energéticos e cadeias de suprimentos complexas que não se resolvem da noite para o dia. No Grupo Report, observamos que essa tendência de “honestidade imperfeita” converge com o rigor exigido por novas regulamentações globais, como as normas IFRS S1 e S2 e os padrões GRI. Ambos os frameworks demandam que as organizações reportem não apenas seus sucessos, mas seus riscos, impactos negativos e o progresso real — com dados brutos e menos adjetivos. Transparência como ativo estratégico O objetivo final de abandonar a sustentabilidade “polida” é elevar o nível do debate. Quando as marcas param de tratar o consumidor como alguém que precisa ser poupado da verdade, elas o convidam a ser um participante do processo de mudança. Ao puxar a cortina e mostrar as mecânicas reais de produção, as empresas deixam de entregar um produto “verde” e passam a entregar uma narrativa de responsabilidade. No fim, a transparência sobre o trabalho que ainda precisa ser feito é o que realmente reconstrói a confiança no longo prazo.

O protagonismo da pauta do fogo na COP30 e suas implicações para o setor empresarial

Um dos debates mais relevantes da COP30 em Belém ocorreu fora dos plenários centrais, em um evento dedicado ao tema “O fogo e seus impactos na conservação da biodiversidade no Brasil”. Realizado na Casa Ipê, em parceria entre o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, Havaianas e a Fundação Sol de Janeiro, o encontro reuniu especialistas e líderes indígenas para discutir um tema que, apesar de crítico para a mudança do clima, só agora ganha o destaque merecido em uma Conferência das Partes. A característica informal do evento, que contou com a presença significativa de brigadistas indígenas entre os painelistas, garantiu uma discussão rica e centrada na realidade de quem está na linha de frente do combate ao fogo. A política de Manejo Integrado do Fogo (MIF) A primeira área de foco do debate foi a política de Manejo Integrado do Fogo (MIF). Esta abordagem reconhece que o fogo é um elemento natural e essencial para a manutenção de muitos ecossistemas brasileiros. O MIF não defende a proibição total do fogo, mas sim a redução de incêndios descontrolados, respeitando o uso consciente e culturalmente necessário que povos e comunidades tradicionais e indígenas fazem desse elemento para suas atividades de subsistência e modos de vida. O entendimento do MIF é crucial para uma política de conservação que seja, ao mesmo tempo, ecológica e socialmente justa. O foco na prevenção e brigadas comunitárias O segundo ponto chave abordado foi a importância do trabalho de prevenção e combate realizado pelos brigadistas, em particular os de comunidades indígenas e tradicionais. Foi ressaltada a necessidade de dois pilares para o sucesso na gestão do fogo: Monitoramento tecnológico: O acompanhamento contínuo de focos de queimada por meio de satélites. Capacitação local: O investimento na capacitação das comunidades que vivem próximas às áreas de risco, garantindo uma resposta rápida e eficaz no combate inicial. Leonardo Gomes (SOS Pantanal) e Tainan Kumaruara (brigadista indígena) enfatizaram que é necessário um investimento prévio em capacitação e equipamentos, em vez de esperar o início do desastre para, então, planejar as ações O exemplo de sucesso no Pantanal A eficácia da prevenção foi ilustrada pelo case das queimadas no Pantanal. Após os grandes incêndios de 2020, a SOS Pantanal mudou sua abordagem. Nos anos seguintes, em vez de depender apenas de ações emergenciais, a organização investiu na capacitação de brigadistas ao longo da estação chuvosa. Em 2024, apesar das previsões de seca indicarem um cenário de queimadas tão graves quanto as de 2020, a região registrou 30% menos áreas queimadas. Este resultado tangível comprova que a prevenção e o investimento em equipes locais e preparadas são o caminho mais estratégico e econômico. O fogo como risco de ESG para empresas brasileiras Para o setor empresarial, o debate sobre a Política de Manejo Integrado do Fogo e o controle de queimadas é uma questão de gestão de riscos ambientais (E) e compliance: Dever de proteção: Empresas dos setores de agropecuária, infraestrutura, construção civil e fabril são legalmente responsáveis pela proteção das Reservas Legais (RL) e Áreas de Preservação Permanente (APPs) sob seu domínio. Danos causados pelo fogo, mesmo que não intencionais, podem resultar em penalidades ambientais. Inventário de GEE: O carbono liberado pelas queimadas em áreas sob responsabilidade corporativa deve ser obrigatoriamente incluído no inventário de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) da empresa. Transparência e divulgação: A divulgação transparente de dados sobre a proteção de áreas nativas é essencial para relatórios de sustentabilidade e para atender às expectativas de stakeholders. Portanto, a adoção de práticas e instrumentos de controle de queimadas – seja por meio do engajamento em programas de MIF ou pelo investimento direto na capacitação de suas próprias equipes e comunidades vizinhas – não é apenas uma prática de sustentabilidade, mas uma estratégia crucial de mitigação de riscos operacionais, legais e reputacionais. Bruna Duffec, consultora de Sustentabilidade e Clima, membro da comitiva Report na COP30.

Empresas discutem na COP30 transição e adaptação em parceria com comunidades de entorno

Lidar com as mudanças climáticas tanto nos eixos de adaptação, com investimentos em segurança e resiliência, quanto na busca de redução de impacto, descarbonização e inovação social foi um tema constante na COP30 em Belém (PA). Com foco em debater exemplos concretos e caminhos dessa agenda, o diretor-executivo de Estratégia e Clima do Grupo Report, Victor Netto, participou como moderador do painel “Territórios resilientes: justiça climática, comunidades e novos modelos de desenvolvimento”. Organizado na Casa EY, o encontro teve participação representantes do Instituto Votorantim e de empresas como CBA, Citrosuco e Reservas Votorantim. Formação de mão de obra local, entendimento de fragilidades territoriais a eventos extremos ligados à mudança do clima, fomento ao ecoturismo e regeneração, diversificação de fontes de renda. Esses são alguns dos assuntos citados como convergentes na hora de avaliar o que empresas devem fazer junto das comunidades em que estão inseridas, com ganhos mútuos que vãodas cadeias de suprimentos às relações institucionais. “O que está em debate aqui é a integração empresa-território, com uma visão de valor compartilhado que dialogue com o modelo de negócio e adapte os conceitos de resiliência, transição, adaptação à realidade dos negócios e,principalmente, de cada comunidade”, ponderou Netto. O olhar para a cadeia de produtores e fornecedores foi um dos pontos de maior debate, integrando gestão de risco e criação de soluções alinhadas às metas de descarbonização e impacto positivo das empresas. A Citrosuco trouxe comoexemplo seu recém-anunciado programa de apoio a fornecedores não apenas na lida com as mudanças climáticas, mas também na geração de pomares regenerativos. Junto das linhas de crédito especiais, a companhia de citricultura assumiu custos de certificação com seus parceiros e, em parceria com o Itaú BBA, facilita o acesso a crédito e recursos. “Além de ser um caminho de adaptação, o projeto permite a obtenção de recursos com créditos de carbono que são aplicados em projetos regenerativos com a nossa assessoria técnica”, afirmouJullie Lucon, Especialista de Negócios de Carbono da Citrosuco. Mapeando riscos e caminhos de desenvolvimento Entre as iniciativas citadas de adaptação e busca de resiliência diante de eventos extremos, como chuvas intensas, inundações e secas, a CBA, do setor de metalurgia e mineração, relatou ter desenvolvido um índice de vulnerabilidade para os territórios em que a empresa mantém operações. A ideia é entender como cada comunidade está exposta de modo particular àsmudanças do clima e, com isso, definir prioridades e meios de mitigação de riscos que ao fim do dia afetam diretamente os negócios. “Precisamos entender as unidades mais expostas aos riscos climáticos e atuar com os municípios onde estamos presentes, inclusive porque nossosfuncionários e parceiros também estão nesses territórios”, comentou Ligia Carvalho, coordenadora de sustentabilidade da CBA. “Validamos esse entendimento com o conselho da companhia, para nos adaptarmos a eventos extremos com uma priorização coerente de investimentos.” Tatiana Motta, coordenadora de Projetos e Carbono da Reservas Votorantim, ressaltou que o relacionamento com os municípios também deve contribuir com o fortalecimento das vocações de cada região. Deu como exemplo o Legado das Águas, reserva privada de Mata Atlântica mantida pela Reservas Votorantim com 31 mil hectares, entre os municípios de Juquiá, Miracatu e Tapiraí, no Vale do Ribeira, em São Paulo. “Vimos isso na prática: o município precisa se preparar e tornar visíveis seus diferenciais. Então nossa contribuição vai além do aporte de recursos e envolve uma interface forte com municípios e moradores da região para atrair novos empreendimentos e atividades”, diz Tatiana. “Cada município está em um momento, em uma fase. Nosso papel é buscar observar como o clima afeta cada localidade e discutir e apoiar as soluções mais adequadas, sem impor modelos”, reforçou Rodolfo Mota, coordenador doPrograma de Apoio à Gestão Pública do Instituto Votorantim. Guto Lobato, gerente-executivo de educação corporativa, membro da comitiva Report na COP30

Finanças sustentáveis e a transição climática no Brasil: lições de um fórum estratégico

Em um dos eventos paralelos que ocorreram na COP 30 na Casa do Seguro, iniciativa da CNseg, ANBIMA e Febraban, o Fórum de Finanças Sustentáveis reuniu representantes do governo, setor financeiro, seguradoras e organismos multilaterais para debater estratégias para o financiamento da transição climática e o fortalecimento do papel do setor financeiro na construção de uma economia de baixo carbono.   Logo na abertura, a discussão sobre seguro rural foi usada como exemplo de como os efeitos da mudança do clima já pressionam o agronegócio e o planejamento de safra. Foi mencionado que está em desenvolvimento um desenho de seguro rural, com foco em cobrir melhor os riscos climáticos aos quais o setor do agronegócio está exposto e que tendem a se intensificar, reconhecendo o seguro como instrumento central de adaptação, e não apenas de proteção financeira tradicional. Além disso, representantes do governo apresentaram um conjunto de instrumentos recentes em finanças sustentáveis, como as emissões de títulos soberanos verdes, a Taxonomia Sustentável Brasileira, o Eco Invest e a criação da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, demonstrando que o Brasil tem avançado de forma significativa na construção de uma infraestrutura financeira mais robusta para acompanhar a transição, tanto do lado regulatório quanto do lado da mobilização de capital privado. Outro tema do debate foi a formação de uma coalizão aberta de mercado de carbono entre Brasil, China e União Europeia, que foi mencionado como relevante por fortalecer o diálogo multilateral diante do cenário geopolítico atual. E, além do fortalecimento do multilateralismo, o mercado de carbono brasileiro demonstra a capacidade e oportunidade do Brasil em dialogar com outros países em pé de igualdade, considerando sistemas de monitoramento, relato e verificação, contabilidade de carbono em nível de produto e mecanismos de ajustes de fronteira, como o CBAM. Nas discussões sobre o Plano de Transformação Ecológica e como o setor financeiro tem contribuído, o foco foi reconhecer os avanços recentes, mas deixando claro que tem diversas lacunas que precisam ser fechadas para os projetos seguirem bem, sobretudo encontrando soluções em conjunto. Nesse sentido, destacaram que existem projetos de interesse nacional, mas que ainda não avançaram pela necessidade de avançar em seguros e contratos de off-take, assim como capital catalítico para atrair os investidores e financiadores e atender a lógica de risco-retorno desses públicos. Com isso, o “espírito de mutirão” citado pelo Dan Ioschpe ao longo da COP 30 se encaixa perfeitamente, tendo em vista a necessidade de considerar cada elo da cadeia de valor para o sucesso da agenda, incluindo financiamento, seguro, cadeia produtiva e infraestrutura, de uma forma estruturada e organizada para ser eficiente e destravar a implementação. Ao abordar os motivos que ainda limitam a atração de capital, lembrou-se que o desenvolvimento socioeconômico brasileiro historicamente não incorporou plenamente a sustentabilidade, apesar do país ter um bônus competitivo em recursos naturais e potencial de descarbonização. Diante disso, foi levantado que o Brasil ainda precisa transformar seu potencial em carteira estruturada de projetos, com governança, modelagem financeira adequada e mecanismos de mitigação de risco. Assim, a COP 30 é vista como um grande chamado para implementação, considerando a lógica de que, se houver bons projetos e capacidade de entrega, os recursos tendem a aparecer. Já nas discussões sobre florestas e bioeconomia, o foco naturalmente voltou-se para a Amazônia, reforçando a ideia de que os instrumentos financeiros devem reconhecer o valor da floresta em pé, tanto como infraestrutura verde quanto ativo para resiliência e adaptação climática. Com isso, o TFFF foi mencionado como um dos grandes anúncios da COP30 justamente por romper com a lógica tradicional de doação e se estruturar como um mecanismo de investimento. Em relação às áreas públicas, o representante do Serviço Florestal Brasileiro destacou que existem programas de manejo florestal nas terras públicas federais que podem ser importantes para fornecer a madeira que o mercado demanda, sendo uma das soluções para gerar renda de forma legal, gerando empregos e reduzindo a pressão sobre áreas irregulares. Contudo, permanece a lacuna de seguros específicos para projetos de restauração em larga escala, o que limita a expansão de algumas iniciativas. Já na esfera privada, a bioeconomia é vista como o caminho para gerar renda a partir da floresta, especialmente por meio de cadeias de óleos, frutos e sementes amazônicas. No entanto, a dúvida que parece permanecer entre os investidores é em relação à existência de garantias adequadas para proteger esses projetos de eventos climáticos ou outras perturbações externas. Sem instrumentos apropriados de seguro e financiamento, o risco continua maior para quem tenta atuar de forma sustentável. Ao longo das discussões, foram mencionadas iniciativas que buscam ampliar o acesso a garantias para comunidades que vivem na floresta. Apesar dos avanços, o tema não foi central no debate, evidenciando que ainda há um caminho para amadurecer essa agenda e assegurar que os recursos cheguem justamente a quem mantém a floresta em pé. Tainara Sobrero consultora de sustentabilidade e estratégia, integrante da comitiva Report na COP30

Colaboração e coalizões para um futuro sustentável

Diante dos desafios globais que enfrentamos da crise climática às desigualdades sociais e considerando que a COP 30 vendo sendo reconhecida como a COP da implementação, torna-se cada vez mais evidente que nenhuma organização, governo ou indivíduo conseguirá avançar sozinho. O mundo exige colaboração, capacidade de escuta e a construção de coalizões fortes, capazes de alinhar visões, recursos e competências diversas em torno de um propósito comum. Construir um futuro melhor depende de reconhecermos que as soluções não estão em uma única mesa, mas na soma de múltiplas perspectivas. É na interseção entre setores, países, governos, culturas, saberes e experiências que surgem as respostas mais inovadoras e eficazes. Por isso, cada parceria é mais que uma união de esforços: é um convite para pensar diferente, criar junto e agir com mais impacto. Coalizões não são apenas alianças formais, são espaços de responsabilidade compartilhada. São ambientes de alinhamento antes da ação, onde divergências viram aprendizado e onde o compromisso coletivo permite avançar muito além do que qualquer iniciativa isolada. Abaixo estão listadas coalizões e colaborações que já apareceram na primeira semana de COP 30. Colaboração espacial para combate ao desmatamentoEspecialistas de agências espaciais internacionais participaram de uma mesa-redonda na Casa da Ciência, em Belém, discutindo a criação de uma coalizão espacial para monitoramento e combate ao desmatamento. Representantes de Austrália, Reino Unido e Gabão reforçaram a importância da cooperação científica internacional diante da velocidade das mudanças climáticas. Como disse Aboubakar Mambimba, diretor-geral da Agência Gabonesa para Estudos e Observações Espaciais: “Precisamos unir pessoas capacitadas para manter de pé nossas florestas, independentemente do país.” Coalizão Brasil Clima, Florestas e AgriculturaA coalizão lançou a publicação “Propostas para uma Transição Climática Global para o Setor do Uso da Terra”, apresentando dez medidas estruturadas nos três pilares da Agenda de Ação da COP 30. Reunindo mais de 400 representantes do agronegócio, setor financeiro, sociedade civil e academia, a Coalizão demonstra que é possível integrar competitividade agrícola, conservação ambiental, responsabilidade climática e inclusão social. Cooperação global para redução de metanoO Ministério da Agricultura e Pecuária, Embrapa Suínos e Aves e o Instituto 17 apresentaram um guia inédito com práticas, tecnologias e recomendações para orientar políticas públicas e estratégias nacionais de redução de metano. A iniciativa foi destacada como passo importante para fortalecer a cooperação técnica entre países. Capitals CoalitionCom ambição para 2035, a coligação busca incorporar o valor de todos os capitais — natural, social, humano e produzido — nas decisões financeiras e empresariais. O trabalho envolve a colaboração com contadores, reguladores e tomadores de decisão para construir confiança e credibilidade na integração dos capitais como base operacional de mercados e políticas. Coalizão Aberta de Mercados Regulados de CarbonoUma iniciativa colaborativa voltada à troca de experiências sobre precificação de carbono, sistemas de MRV (Monitoramento, Reporte e Verificação), metodologias de contabilidade e regras para uso de créditos de alta integridade. Seu objetivo é fortalecer a ambição, efetividade e equidade dos mercados regulados de carbono como instrumentos essenciais para o cumprimento das NDCs no âmbito do Acordo de Paris. A declaração já foi endossada por Brasil, China, União Europeia, Reino Unido, Canadá, Chile, Alemanha, México, Armênia, Zâmbia, França e Ruanda e permanece aberta a novas adesões. O papel do setor empresarial Mobilizar o setor empresarial em ações coletivas, projetos e capacitações de mitigação e adaptação climática é fundamental para catalisar a integração da agenda climática nas estratégias corporativas, acelerando a transição do Brasil para uma economia resiliente e net-zero, de forma transparente, justa e inclusiva.   Mensagem da Presidência da COP 30, na nona carta “Embora a janela de oportunidade esteja se estreitando, manter vivo o objetivo de 1,5 °C ainda é possível — desde que a cooperação internacional seja direcionada para catalisar círculos virtuosos de transformação acelerada. Este é o momento de transformar o risco de pontos de inflexão planetários em oportunidade para uma guinada global.” Na COP 30, a resposta coletiva à urgência climática precisa se materializar por meio da implementação acelerada, da solidariedade e da cooperação internacional. Rachel AlvesGerente executiva de consultoria, integrante da Comitiva Report na COP30 

Portfólio de investimentos sustentáveis e governança territorial ganham foco na COP30

O auditório Jandaíra da Green Zone da COP30 reuniu ministros de estado, membros do governo federal e da sociedade civil, lideranças da Itaipu Binacional, o ministro Guilherme Boulos, da Secretaria Geral da Presidência, e Janja Lula da Silva, Embaixadora dos ODS e Enviada Especial para Mulheres da COP. Em duas sessões temáticas, foram abordados a relação entre a governança participativa e a Agenda 2030 das Nações Unidas, e os investimentos federais em transformações ecológicas. Os laços entre as agendas social e ambiental foram evidenciados nos debates. Em meio a compromissos e dados de projetos de investimento sustentável governamentais, pautas delicadas, como a exploração na foz do Amazonas e o pagamento por serviços ambientais, renderam posicionamentos da sociedade civil e do governo. Agenda 2030 com foco na governança participativa O primeiro debate contou com a participação da Itaipu Binacional, que apresentou exemplos de programas de desenvolvimento territorial. O ministro Guilherme Boulos e Janja Lula da Silva escutaram ponderações sobre as expectativas de movimentos sociais e empresas para o exercício prático de fiscalização, acompanhamento e envolvimento da sociedade quanto à contribuição brasileira à Agenda 2030. “Em um contexto de crise climática, social e econômica, a governança participativa é o elo entre política pública e vida comunitária”, disse Enio Verri, diretor geral da Itaipu. Suhellen Iurk Preste, do Instituto SustentAção, ressaltou como mecanismos de participação e governança social são uma forma de combater a crise de representação vivida pelas instituições e estabelecer uma gestão democrática e horizontal. “Os espaços de participação social precisam ser uma prioridade para o governo”, afirmou. As indagações do público foram sintetizadas em uma lista objetiva de demandas ao governo. Especificamente quanto a dois temas críticos — assegurar pagamentos aos serviços de catadores e associações nas cidades e reavaliar a exploração de petróleo na foz do Amazonas, recentemente autorizada pelo governo federal —, Janja se comprometeu com a remuneração pela União à cadeia de reciclagem, em caso de impossibilidade dos municípios e estados. Também indicou que há critérios e diretrizes para um eventual processo de exploração de petróleo no Amazonas. “Convido a verem o que a ministra Marina (Silva) já declarou sobre o tema. É preciso entender que há um mapa para reduzir a dependência do Brasil quanto aos combustíveis fósseis, e uma fiscalização rigorosa garantida para novos projetos. A transição energética não vai ocorrer no dia seguinte ao fim da COP, e para isso temos que manter um plano de transição.”   Portfólio de investimentos sustentáveis: dados e taxonomia brasileira Na segunda parte da agenda, representantes do Ministério da Fazenda e integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável apresentaram o Portfólio de Investimentos Sustentáveis no Brasil, um mapeamento de centenas de iniciativas em energia, indústria, infraestrutura e bioeconomia em andamento no país. Os dados, disponíveis na plataforma do Ministério da Fazenda, se alinham à taxonomia sustentável brasileira. São mais de 2,5 mil projetos públicos e privados, distribuídos em 832 cidades brasileiras, somando R$473 bilhões em investimentos. Os dados evidenciam:   Região Volume de Investimentos Nordeste R$ 241 bilhões Norte R$ 29 bilhões Centro-Oeste R$ 21 bilhões “À medida que a taxonomia for utilizada teremos um mapeamento mais e mais completo de todos os projetos em andamento ou em captação de recursos. São oportunidades para atrair e listar investimentos públicos e privados em iniciativas nas frentes que dialogam com a transição e a adaptação às mudanças climáticas”, disse Cristina Reis, titular da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, que esteve à frente das negociações do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). Laura Carvalho, diretora da Open Society e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável, relacionou os recursos para lidar com a crise climática à competitividade do País e à descarbonização e transição energética. “Esse portfólio ilustra a associação de investimentos a critérios de impacto, posicionando o Brasil como líder global da economia verde.” Guto Lobato Gerente-executivo de educação corporativa, integrante da Comitiva Report na COP30.

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