Sustentabilidade e ESG

Normas IFRS S1 e S2: a CVM recuou (por enquanto). E agora?

Empresas iniciantes, que iniciaram sua jornada agora ou que investiram na conformidade aos padrões devem avaliar o custo de voltar atrás; agenda IFRS tende a evoluir à revelia da agenda regulatória Por Guto Lobato, gerente executivo de educação na Report Quem acompanha o histórico das práticas de relato no Brasil reconhece dois movimentos nem sempre convergentes. De um lado, uma cultura de transparência voluntária, a partir dos anos 2000, com normas como as da Global Reporting Initiative (GRI). De outro lado, um movimento mais recente, que busca impor obrigações de divulgação financeira sobre sustentabilidade. Iniciativas como o Relato Integrado (<IR>) e o TCFD incentivaram esse caminho na década passada e, em 2023, a IFRS Foundation lançou as Normas IFRS S1 e S2 – que rapidamente passaram a ser adotadas em dezenas de países. O Brasil despontou como pioneiro nessa direção quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) divulgou sua Resolução 193/2023, que estabelecia prazos para companhias abertas publicarem relatórios baseados nas Normas IFRS S1 e S2. Entretanto, no apagar das luzes de maio, a CVM publicou a Resolução 244, que removeu o caráter mandatório desse processo. Na prática, quem se comprometeu no período de adesão voluntária deve seguir publicando por alguns anos; quem não começou não precisaria, por ora, se aventurar. Bastaria aplicar um “Pratique ou Explique” e justificar, em comunicado ao mercado, a decisão de não relatar. Esse modelo, contudo, é, na prática, um fracasso. Podia até fazer sentido uma década e meia atrás, mas hoje perdeu sua razão de ser. A reviravolta da CVM tomou muitos auditores, entidades da área contábil, consultorias e empresas de surpresa. A reação foi imediata: entidades como Conselho Federal de Contabilidade, IBFC e ANEFAC enviaram carta conjunta expressando preocupação à CVM. Organizações de mercado, como a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), afirmaram ver o recuo com preocupação; organizações da sociedade civil anunciaram que irão entrar com processo para revisar a nova resolução; e, questionada por veículos de mídia, a CVM se defendeu quanto à decisão, enquanto seu novo presidente diz estar aberto a discutir o tema outra vez no Colegiado do órgão. O próprio governo federal pressiona por uma reavaliação da medida. Mais recentemente, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) propôs um modelo de “convergência gradual assistida”, adiando por dois anos as obrigatoriedades, sem eliminar as exigências (que passariam a valer em 2028). A ideia do Conselho é “equilibrar o tempo necessário para adaptação das empresas com a necessidade de preservar a comparabilidade das informações e a credibilidade do mercado de capitais brasileiro.”. Mesmo sob escrutínio público, a revogação da obrigatoriedade deixa muitas companhias tentadas a tomar decisões de forma imediata. Seguir, voluntariamente, uma trilha de aprofundamento no disclosure climático e de sustentabilidade com viés financeiro ou apostar que o mercado não abraçará esta causa naturalmente? Não é uma escolha simples. E há ao menos três aspectos a considerar para tomar decisões de forma ponderada: a relevância e usabilidade da informação; as regulações que seguem ativas; e o desperdício de recursos que significa voltar atrás. Três pontos a considerar na hora de investir na jornada IFRS 1 – O primeiro ponto a ser ponderado na hora de decidir trilhar ou não uma jornada IFRS é a pertinência da informação desses relatos para quem toma decisões sobre seu negócio. O movimento de práticas reguladas de relato tem público-alvo claro: o mercado financeiro. Se nos relatos tradicionais a perspectiva tende a ser multistakeholder, nas divulgações de risco e oportunidade o foco é a necessidade do provedor de capital: investidor, acionista, fundos, instituições financeiras, credores. Coloque-se no lugar de quem decide em que empresa vale mais a pena alocar dinheiro. Riscos climáticos, hoje, podem ser omitidos ou divulgados superficialmente por uma companhia listada, como se não pudessem afetar as Demonstrações Financeiras? Na subscrição ou na concessão de crédito, seguradoras e bancos podem, hoje, ignorar questões ESG em um grande projeto de infraestrutura? Parece difícil haver espaço para recuos. 2- O segundo ponto a considerar: muitas regulações seguem ativas pelo mundo e, direta ou indiretamente, já afetam as relações comerciais e de controle acionário da maioria das empresas. No próprio Brasil, inclusive, há outras regras: se a da CVM está por ora suspensa, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional mantêm a Resolução CMN nº 5.185, que define compromisso para todas as empresas sob sua regulação reportarem com base nas Normas IFRS S1 e S2. O universo potencial total estimado pode envolver mais de 1,4 mil instituições autorizadas pelo Banco Central, com diferentes horizontes de tempo. Além dos países com regulações IFRS, há a Diretiva CSRD da União Europeia, cujas Normas ESRS exigem o reporte de questões de sustentabilidade na cadeia de valor. Ou seja: para quem negocia com companhias no exterior ou tem investidores de outras jurisdições, a pressão por informação financeira de sustentabilidade se mantém. Setores como mineração, petróleo e gás, siderurgia e agropecuário não têm escapatória: são provedores de matérias-primas e insumos críticos e, por força da relação comercial, serão cobrados a divulgar dados. 3- O terceiro ponto se liga ao investimento de tempo e recursos até aqui. Aderir ou não aos padrões IFRS não é para muitos uma escolha, e sim um processo já em andamento – cabe avaliar se o investimento até aqui será ou não aproveitado. A implantação de uma linguagem contábil de sustentabilidade grande desafio da jornada rumo à S1 e à S2; empresas de diferentes setores vêm ajustando processos internos, pondo em diálogo áreas de Sustentabilidade, Riscos e Finanças, repensando suas divulgações e instituindo novos comitês e processos de governança. A atitude pioneira da CVM, embora por enquanto neutralizada pela Resolução 244/2026, já induziu mudanças no mercado. Consultorias, auditorias e profissionais se prepararam, áreas inteiras foram estruturadas para o atendimento aos padrões. Profissionais de contabilidade e ESG têm se sentado juntos à mesma mesa de reunião. Cabe parar esse amadurecimento por conta da suspensão de uma das regulações? Independentemente das idas e voltas que sempre ocorreram na agenda de relato do

O armário que a sustentabilidade esqueceu

Estudo mostra que roupas guardadas por anos podem ser pouco usadas e que medir apenas a durabilidade das peças não basta para reduzir o impacto ambiental da moda Há um ponto cego recorrente nas discussões sobre moda sustentável. Fala-se muito sobre fibras recicladas, rastreabilidade, logística reversa, design circular e destino dos resíduos. Fala-se menos sobre o que acontece depois que a roupa entra no armário e, sobretudo, sobre quantas vezes ela de fato é usada. Um estudo recente conduzido por pesquisadores da KU Leuven e da Universidade de Utrecht ajuda a iluminar essa zona pouco examinada da sustentabilidade têxtil. A pesquisa analisou guarda-roupas de adultos na Flandres, região norte da Bélgica, por meio de visitas presenciais às casas dos participantes. Em vez de trabalhar apenas com declarações genéricas de consumo, os pesquisadores fizeram auditorias dos armários e coletaram informações sobre diferentes tipos de peças, ocasiões de uso, tempo de permanência, frequência de uso e lavagens. O resultado é um retrato incômodo para qualquer leitura simplista sobre consumo consciente. Em média, os guarda-roupas analisados continham 199 peças. Desse total, 27% não haviam sido usadas nos 12 meses anteriores. Apenas 5% eram peças de segunda mão. As mulheres tinham, em média, guarda-roupas maiores que os homens, 235 peças contra 158, mas a proporção de roupas paradas era semelhante entre os gêneros. A ilusão da gaveta cheia O dado mais relevante, porém, não está apenas no tamanho dos armários. Está na diferença entre possuir, guardar e usar. Segundo o estudo, uma peça é mantida, em média, por cinco anos. À primeira vista, esse número poderia sugerir uma relação relativamente duradoura entre consumidores e roupas. Mas a duração em anos esconde uma realidade mais complexa: a intensidade de uso varia enormemente conforme o tipo de peça e a ocasião para a qual ela foi comprada. Uma camiseta informal, por exemplo, é mantida por cerca de quatro anos, usada 33 vezes e lavada 18 vezes ao longo de sua vida útil. Já uma camiseta destinada a ocasiões formais permanece no guarda-roupa por cinco anos, mas é usada apenas nove vezes e lavada seis. Um casaco informal pode ser guardado por cinco anos e usado 136 vezes, embora quase nunca seja lavado. A distinção é decisiva. Uma roupa que dura muito tempo no armário não necessariamente presta muito serviço. Ela pode apenas ocupar espaço. Para avaliar o impacto ambiental de uma peça, portanto, não basta perguntar por quanto tempo ela existe. É preciso perguntar quantas vezes ela substituiu a necessidade de outra peça, quantas ocasiões de uso entregou e com que intensidade demandou lavagem, energia, água e produtos químicos. O limite das soluções verdes Esse ponto é especialmente importante porque parte significativa da agenda de sustentabilidade da moda ainda se apoia em soluções centradas no produto: melhorar materiais, aumentar durabilidade, facilitar reciclagem, ampliar a coleta de resíduos. Todas são frentes relevantes. Mas o estudo lembra que seus benefícios ambientais dependem de uma condição frequentemente ignorada: a redução dos volumes de produção e consumo. Uma roupa mais durável, se pouco usada, pode não resolver o problema. Uma peça de segunda mão, se comprada por impulso e abandonada no armário, também não. A circularidade, nesse caso, corre o risco de funcionar como uma camada de verniz sobre o mesmo padrão de excesso. A pesquisa mostra que a ocasião de uso é um fator central. Roupas formais são, em geral, muito menos utilizadas ao longo da vida útil. Vestidos formais aparecem entre os itens de menor intensidade de uso. Blazers e peças de alfaiataria também tendem a passar por poucos ciclos de uso e lavagem. Isso não significa que sejam irrelevantes. Significa que cumprem uma função social específica, muitas vezes associada a eventos raros, códigos profissionais ou expectativas de apresentação pessoal. É justamente aí que o debate ganha densidade. Se determinadas roupas são necessárias, mas usadas poucas vezes, talvez a solução não seja apenas fabricar versões “mais sustentáveis” dessas peças. Em alguns casos, pode fazer mais sentido discutir modelos de compartilhamento, aluguel, guarda-roupas coletivos, revenda qualificada ou serviços que reduzam a necessidade de propriedade individual. Mas o próprio estudo recomenda cautela. A reutilização só gera benefício ambiental se, de fato, aumentar o número de usos por peça e evitar novas compras. Se o mercado de segunda mão se tornar apenas mais uma via de consumo, sem reduzir o volume total de roupas adquiridas, seu potencial climático e ambiental diminui. Os diferentes ritmos do consumo Outro achado relevante é a existência de grandes diferenças entre grupos. Homens e pessoas mais velhas, em média, usaram suas roupas com maior intensidade. No agregado por participante, a mediana geral foi de 35 usos por peça. Entre homens, chegou a 45; entre mulheres, ficou em 25. No grupo acima de 55 anos, a mediana foi de 48 usos, acima dos grupos mais jovens. Essas diferenças não devem ser lidas de forma moralista. Elas apontam para comportamentos, pressões sociais e contextos de consumo distintos. A moda não é apenas cobertura corporal. É identidade, pertencimento, trabalho, gênero, desejo, status e convenção. Uma política eficaz para reduzir impactos precisa lidar com essa complexidade, em vez de partir da ideia ingênua de que bastaria informar melhor o consumidor. O estudo também chama atenção para a lavagem. Em média, os participantes relataram lavar as roupas após três usos. Peças usadas junto ao corpo, como camisetas e blusas, são lavadas com maior frequência. Casacos, por outro lado, podem ser usados dezenas de vezes antes de uma lavagem, quando são lavados. Como a fase de uso pode envolver consumo de água, energia e químicos, os ciclos de lavagem são parte importante da avaliação ambiental. Ainda assim, eles não servem como métrica universal: um casaco pouco lavado pode ser muito usado, enquanto uma peça formal pouco lavada pode ter sido simplesmente pouco vestida. A principal contribuição do estudo está em recusar uma única métrica. Tempo de posse, número de usos e ciclos de lavagem contam histórias diferentes. Só quando analisados em conjunto ajudam a entender o papel real de uma roupa

Rio Nature & Climate Week 2026 reforça o protagonismodo Sul Global na agenda climática

Evento reforçou a necessidade de acelerar soluções climáticas, ampliar mecanismos de financiamento e integrar biodiversidade, desenvolvimento social e transição econômica. A emergência climática, a perda de biodiversidade e a necessidade de acelerar a implementação de soluções estiveram no centro das discussões da Rio Nature & Climate Week (RNCW) 2026. Realizada entre os dias 1º e 6 de junho, no Rio de Janeiro, a iniciativa reuniu mais de 6 mil participantes de diferentes setores para debater caminhos capazes de transformar compromissos em ações concretas. Na abertura da conferência principal, o climatologista e pesquisador brasileiro Carlos Nobre conduziu a palestra “Emergência climática: desafios a serem enfrentados”, destacando os riscos associados ao limite de 1,5°C de aquecimento global. O especialista também alertou para os impactos da perda de biodiversidade nos biomas brasileiros e reforçou a importância de avançar em agendas como desmatamento zero, restauração florestal e fortalecimento da sociobioeconomia em territórios indígenas e comunidades locais. Ao longo da semana, representantes do setor público, empresas, academia, investidores e organizações da sociedade civil discutiram temas como justiça climática, transição energética justa, sustentabilidade empresarial, bioeconomia, adaptação climática e o papel estratégico do Sul Global na construção de uma economia de baixo carbono. Financiamento climático ganha protagonismo nos debates Paralelamente à programação principal, a RNCW contou com uma série de eventos-âncora dedicados a temas prioritários para a agenda climática e de biodiversidade. Entre eles, o III Fórum de Finanças Climáticas e de Natureza reuniu lideranças nacionais e internacionais para discutir caminhos capazes de ampliar a implementação de soluções em diferentes territórios. A equipe da Report acompanhou os debates, que abordaram desde a relação entre cidades e florestas até mecanismos financeiros voltados à adaptação climática e à proteção da biodiversidade. Entre os principais temas discutidos esteve a necessidade de ampliar instrumentos financeiros capazes de apoiar municípios vulneráveis, fortalecer projetos locais e reduzir riscos para investidores. Também ganharam destaque as discussões sobre monitoramento de dados climáticos, métricas de impacto e mecanismos de blended finance para atrair capital destinado a projetos nos países do Sul Global. “Durante as mesas-redondas, ficou evidente a disposição das instituições em avançar na implementação de soluções climáticas adaptadas às diferentes realidades do Brasil e do mundo. O consenso é que existe liquidez para financiar a transição. O desafio agora é transformar essa ambição em projetos bancáveis e conectados às vulnerabilidades e necessidades locais”, Leonardo Diniz, consultor de Sustentabilidade do Grupo Report, que esteve no evento.  O futuro da RNCW Em uma semana marcada pela pluralidade de vozes e perspectivas, a Rio Nature & Climate Week reforçou uma mensagem recorrente em diferentes agendas: enfrentar os desafios climáticos exige integrar soluções para clima, biodiversidade e desenvolvimento social. Os debates também evidenciaram o protagonismo do Sul Global na construção dessas respostas, valorizando o papel de comunidades indígenas, conhecimentos tradicionais e mecanismos de financiamento capazes de acelerar a implementação. Ao consolidar seu calendário até 2030 e ampliar sua presença em fóruns internacionais, a RNCW fortalece a posição do Rio de Janeiro e do Brasil como espaços estratégicos para o avanço da agenda climática global. 

COP30 em Belém: financiamento climático e o papel do Brasil na transição global

Financiamento climático: o que esperar da COP 30

A COP 30 deve marcar uma inflexão no debate climático: menos centrada na formulação de compromissos globais (mesmo que os países ainda tenham que apresentar suas NDCs) e mais voltada à criação de condições financeiras para viabilizá-los. A mitigação e a adaptação não avançarão sem um redesenho profundo dos mecanismos de financiamento — e, em 2025, o tema se torna o cerne das negociações multilaterais. Uma das iniciativas mais esperadas para essa edição da COP é o “Roteiro de Baku a Belém”, que busca construir caminhos para a mobilização de US$1,3 trilhão até 2035 em financiamento climático, voltado para os países em desenvolvimento. A ideia é redesenhar a arquitetura financeira global e atrair recursos para a adaptação desses países, que hoje lidam com barreiras significativas de atração de capital privado, endividamento e restrições fiscais. Entre os obstáculos mais críticos estão a ausência de consenso entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e a dificuldade de financiar projetos de longo prazo em energia limpa, agricultura regenerativa, adaptação climática e infraestrutura resiliente. Além disso,   os mercados emergentes estão mais expostos a riscos de crédito e volatilidade cambial. O plano brasileiro O Brasil tem buscado estruturar uma agenda financeira e regulatória que responda a esse desafio. O Plano de Transformação Ecológica – Novo Brasil, lançado pelo Ministério da Fazenda, constitui o arcabouço mais abrangente já apresentado no país para integrar crescimento econômico, transição climática e inclusão social.  No final de agosto, o governo brasileiro disponibilizou um Painel de Monitoramento do plano, que completou dois anos em 2025 e está organizado em torno de quatro grandes eixos:  Finanças sustentáveis Sustentabilidade ambiental Empregos e transição justa Inovação tecnológica e reindustrialização verde Dentro do eixo de finanças, destacam-se instrumentos como o Fundo Clima, o programa Eco Invest Brasil, a emissão de títulos soberanos verdes e a preparação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Outra aliada de peso é a Taxonomia Sustentável Brasileira, cujos cadernos técnicos foram recentemente aprovados, estabelecendo critérios para classificar atividades econômicas de acordo com seus impactos socioambientais e climáticos. Os documentos estão em processo de revisão final para publicação em breve, em portugues e inglês. Em seguida, serão trabalhados pelos respectivos órgãos reguladores. Financiamento climático: escala e barreiras No campo do financiamento climático, iniciativas como o Eco Invest Brasil, desenvolvido em parceria entre o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o governo brasileiro, buscam mitigar riscos cambiais e atrair capital privado estrangeiro para projetos de longo prazo — de energia renovável a soluções baseadas na natureza. Entre elas estão  mecanismos de blended finance, que combinam recursos públicos, privados e filantrópicos para reduzir riscos de investimento, e que começam a ganhar espaço como instrumentos de escala. O relatório do CPI/PUC-Rio revelou um salto significativo nos fluxos de financiamento climático internacional para o Brasil entre 2021–2022, com crescimento de 84% em relação ao biênio anterior, atingindo cerca de R$ 26,6 bilhões por ano — uma taxa muito superior ao aumento global, que foi de 28% no mesmo período. O crescimento foi liderado pelo setor de energia limpa, que obteve aumento de 165% nos recursos destinados à geração solar e eólica. Ainda assim, a assimetria setorial é evidente: a energia responde por 53% dos recursos, enquanto o setor de uso da terra (AFOLU), que representa a maior parcela de emissões nacionais, recebe apenas 11%. Projetos florestais, apesar de estratégicos para o cumprimento das NDCs brasileiras, captam somente 2% do total, embora representem 41% das doações internacionais. Essa lacuna sinaliza tanto a urgência quanto a oportunidade de reequilibrar os fluxos de capital para soluções baseadas na natureza. O potencial das florestas Por isso, também é esperado com entusiasmo para a COP 30 o anúncio do Fundo de Florestas Tropicais (TFFF), um novo modelo de financiamento climático que recompensa os países que preservam suas florestas tropicais. A expectativa é de captar US$125 bilhões, em uma operação que independe do mercado de carbono regulado. O fundo faz parte de uma estratégia mais ampla do governo brasileiro que inclui outros pilares como a sociobioeconomia e a biotecnologia.  A Climate Advisers Initiative, por meio de seu relatório Orbitas, aposta que, nos próximos 30 anos, a restauração florestal em larga escala de pastagens degradadas no Brasil pode gerar até US$ 141 bilhões em valor, criando mais de 350.000 empregos em tempo integral anualmente. Ainda de acordo com a iniciativa, “sob as condições certas, as florestas e a biodiversidade podem ser restauradas em quase 60 milhões de hectares (Mha) — uma área do tamanho da França”. E ainda ressalta que “esses resultados estão ao nosso alcance, mas somente se os setores público e privado do Brasil agirem rapidamente”. Impactos para as empresas A sétima carta da presidência da COP 30 foi direcionada às empresas e ao setor privado, reconhecendo os avanços significativos na transição, mas destacando a necessidade de acelerar o engajamento por meio da Agenda de Ação Climática, que destaca seis eixos temáticos e trinta objetivos-chave. “A expectativa da liderança da COP 30 é de que haja uma abordagem mais concreta sobre qual financiamento será necessário para cada tipo de solução climática. A qualidade das NDCs está melhorando e, com isso, direcionando a operação do setor privado em um ambiente mais controlado e seguro”, ressalta Tainara Sobreiro, especialista em finanças sustentáveis no Grupo Report.  Com isso, o foco do governo nas empresas estará apoiado  em três pilares: alavancar a inovação, atrair capital para a transição e influenciar o engajamento da cadeia produtiva. Com essas soluções e o avanço do debate na COP, o setor privado passaria a operar em um ambiente em que regulação, finanças e estratégia corporativa estarão cada vez mais interdependentes. O desafio será navegar as incertezas, compreender os novos mecanismos financeiros e transformar riscos climáticos em oportunidades de negócio. Ao unir visão técnica, experiência em relato e compreensão das dinâmicas financeiras, a Report ajuda organizações a avançar de forma segura em um cenário de maior escrutínio e novas exigências de transparência. Oferecemos estratégias de descarbonização, mapeamento e valoração de riscos e oportunidades, planos de adaptação climática

Proposta da EFRAG simplifica os ESRS e reduz requisitos de reporte

ESRS: o que muda com a proposta de simplificação da EFRAG

Reduções expressivas, reestruturação metodológica e maior alinhamento com padrões internacionais marcam a nova versão dos ESRS apresentada em julho. Por Bárbara Virgili da Costa e Carolina Blois, consultoras em sustentabilidade na Report Em maio de 2025, a Comissão Europeia emitiu à EFRAG um mandato oficial para revisar e simplificar os European Sustainability Reporting Standards (ESRS). A solicitação partiu do reconhecimento de que as normas, ainda que robustas, exigem ajustes para refletir a diversidade de maturidade das empresas frente à agenda de sustentabilidade. Desde então, uma série de reuniões técnicas e públicas culminou na versão 1.6 dos Draft Amended ESRS, apresentada ao longo de julho. O Grupo Report acompanhou de perto esse processo e resume, a seguir, os principais destaques. Seis eixos da proposta de revisão Simplificação da avaliação de dupla materialidade (DMA); Maior legibilidade e concisão das declarações de sustentabilidade, com melhor integração ao relatório corporativo; Revisão crítica da relação entre os Requisitos Mínimos de Divulgação (MDRs, agora GDRs) e os tópicos temáticos; Melhoria da clareza e acessibilidade do texto normativo; Introdução de medidas de alívio para redução da carga de reporte; Maior interoperabilidade com frameworks internacionais, como o ISSB. Quais reduções já foram feitas? As mudanças anunciadas até aqui já representam um corte relevante nos requisitos de reporte: 58% de redução nos data points obrigatórios (“shall”) 97% de redução nos voluntários (“may”) 26% dos MDRs (agora GDRs) eliminados A proposta não apenas alivia a carga de trabalho das empresas, mas reafirma a lógica de proporcionalidade e materialidade: o foco deve estar no que realmente importa. Normas gerais (ESRS 1 e ESRS 2): estrutura, materialidade e flexibilidade ESRS 1 – Requisitos gerais As mudanças estruturais no ESRS 1 fortalecem a aplicabilidade prática: Os comandos “shall” agora são apresentados como data points separados; As orientações obrigatórias passam a integrar diretamente os itens de divulgação (como os Application Requirements); Os conteúdos não obrigatórios foram transferidos para guias ilustrativos (NMIGs-Non-Mandatory Illustrative Guidance); Introdução do conceito “gross versus net”, que diferencia impactos brutos e líquidos na avaliação de materialidade; Substituição do termo “matter” por “topic” ou “subtopic”.  De forma geral, as empresas passam a contar com mais autonomia para definir o nível de reporte, de acordo com seu contexto e maturidade, bem como uma cobertura proporcional da cadeia de valor e definições mais claras sobre as fronteiras de reporte. Dupla materialidade e fair presentation A nova seção “considerações práticas” reforça a aplicação proporcional da dupla materialidade; A materialidade da informação é reconhecida como filtro central da declaração de sustentabilidade; O conceito de fair presentation (apresentação fiel), oriundo do ISSB, passa a ser incorporado, com foco em relevância e representação verdadeira — tema que gerou debate quanto à maturidade das empresas europeias para aplicá-lo com o mesmo rigor dos relatórios financeiros.  ESRS 2 – Governança, estratégia e modelo de negócios GOV-4 (antigo GOV-5): reduz a granularidade dos relatos narrativos e reforça a compatibilidade com o IFRS S1/S2; SBM-3: duas opções foram apresentadas e serão decididas na consulta pública: Dados financeiros quantitativos obrigatórios, com possibilidade de justificativa e uso de qualitativos; Informações qualitativas obrigatórias e quantitativas opcionais. GDRs substituem MDRs Os novos GDRs só são exigidos se a empresa tiver políticas, metas ou ações sobre o tema — uma mudança importante que respeita o princípio da aderência à realidade. Normas ambientais (ESRS E1 a E5): cortes, clareza e convergência A reunião de 16/07 marcou a apresentação oficial das propostas de simplificação para os padrões ambientais. Abaixo, os principais pontos: Objetivos da revisão ambiental: Redução de requisitos narrativos e métricos em IRO-1, SBM-3 e PATs; Clareza nos indicadores quantitativos (nível 4); Eliminação de redundâncias e aumento da compatibilidade com IFRS. ESRS E1 – Mudança Climática Item Ajuste E1-1 (Plano de Transição) Condensação narrativa e foco em compatibilidade com o cenário de 1,5°C E1-2 (Riscos Climáticos) Incorporação do IRO-1 com categorização temporal simplificada E1-3 (Resiliência) Alinhamento com IFRS S2 e destaque para avaliação quantitativa E1-4 e E1-5 (Políticas e Ações) Evita sobreposição com ESRS 2; adaptação climática realocada E1-6 (Metas) Retira a exigência de “net zero”; amplia flexibilidade para metas por intensidade E1-7 (Energia) Elimina intensidade energética por receita líquida E1-8 (Emissões GEE) Intensidade torna-se voluntária; escopos 1, 2 e 3 permanecem obrigatórios E1-9 (Créditos de Carbono) Exige detalhamento, mas sem vínculo com metas net zero E1-10 (Preço Interno de Carbono) Informações mínimas sobre uso e definição do preço E1-11 (Impactos Financeiros) Redução da complexidade narrativa Reduções no E1: “Shall”: -53% (84 de 196) “May”: -87% (13 de 15) ESRS E2 – Poluição Eliminação do IRO-1 e do E2-6; E2-4 passa a exigir relato sobre microplásticos e emissões atmosféricas sem depender do E-PRTR; Discussões importantes sobre: A ambiguidade no parágrafo AR 4.16(a), que trata de poluentes na cadeia de valor; A ausência de uma lista exemplificativa de poluentes reportáveis; E2-5 diferencia fabricantes de químicos e usuários finais, com base no regulamento REACH. ESRS E3 – Água Restrição a água doce (recursos marinhos fora do escopo direto); E3-4 torna obrigatória a caracterização do balanço hídrico em áreas críticas (de “may” para “shall”); Debate aberto: o balanço hídrico deve incluir a cadeia de valor? ESRS E4 – Biodiversidade e Ecossistemas E4-1 exige plano de transição em conformidade com o Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework; E4-5 solicita identificação apenas dos sites mais relevantes, dispensando relato universal. ESRS E5 – Recursos e Economia Circular E5-4 introduz os “materiais-chave” e faz referência ao Critical Raw Material Act; E5-5 flexibiliza métricas de reciclabilidade e descarte, com destaque para reuso e segmentação por tipo de resíduo. Reduções entre E2 e E5: “Shall”: -67% (89 de 170) “May”: -100% Normas sociais (S1 a S4) e governança (G1): foco em princípios e coerência A simplificação dos padrões sociais reflete um movimento mais profundo: redução de volume, eliminação de repetições e adoção de abordagens baseadas em princípios. Diretrizes gerais da revisão social Redução da complexidade da avaliação de dupla materialidade Convergência com o relatório corporativo Reavaliação crítica dos requisitos mínimos Clareza textual Dispensas com base em ônus excessivo Padrão Total original Deletados Redução S1 – Força de trabalho

No ano mais quente registrado no planeta desde a Revolução Industrial, os países chegaram ao final de mais uma COP ainda sem um consenso ambicioso sobre como financiar as ações de adaptação e mitigação das mudanças climáticas.

COP29: lições de Baku e expectativas para Belém 2025

No ano mais quente registrado no planeta desde a Revolução Industrial, os países chegaram ao final de mais uma Conferência das Partes ainda sem um consenso ambicioso sobre como financiar as ações de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Já esvaziada e com o risco de ser suspensa, a COP29, realizada no Azerbaijão, chegou à prorrogação e conseguiu ao menos garantir a continuidade do arranjo em vigor, com o direcionamento de US$ 300 bilhões anuais pelos países desenvolvidos, entre recursos públicos, privados e filantrópicos.  Apesar de superior ao compromisso dos US$ 100 bilhões de 2020 a 2025, a Nova Meta Coletiva Quantificada, válida de 2026 a 2035, ainda é considerada tímida e continuará sendo discutida no caminho entre Baku e Belém. A missão é encontrar soluções para a mobilização dos US$ 1,3 trilhão necessários para os países em desenvolvimento construírem sua economia de baixo carbono. Os desencontros de interesses também impossibilitaram qualquer avanço relacionado ao texto aprovado em 2023, na conferência de Dubai, que reconheceu pela primeira vez a necessidade de uma transição energética que se afaste dos combustíveis fósseis. Na prática, não houve discussões relevantes do Grupo de Trabalho de Mitigação. Por outro lado, a conferência conseguiu destravar a aprovação das regras gerais do Artigo 6 do Acordo de Paris, que estabelece o comércio de carbono entre países, além de um mercado global que será regido pela Convenção do Clima da ONU. Com isso, os trabalhos deixam o campo da política e seguem para as discussões técnicas de como operacionalizá-lo.    De Baku a Belém O desfecho tímido em Baku ampliou as expectativas com relação ao Brasil, anfitrião da COP30 em 2025. A conferência de Belém, que já estava sendo conhecida como “a COP da implementação” , também terá que dar continuidade às negociações de financiamento climático, por meio do mecanismo de transição “Baku to Belém Roadmap to 1.3T”. A realização da COP30 marcará ainda o prazo para que os países apresentem individualmente sua nova NDC, ou Contribuição Nacionalmente Determinada, na sigla em inglês. O Brasil entregou o seu compromisso já em Baku, com a meta de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, com base nos dados de 2005, e a promessa de atingir a neutralidade até 2050. O plano veio embalado pela notícia de que o país reduziu suas emissões em 12% em 2023, o melhor resultado em 15 anos. Para ajudar a viabilizar o plano, o país lançou a Plataforma de Investimentos Climáticos e Transformação Ecológica, um mecanismo de mobilização de recursos para financiar a transição. E, na esteira da evolução das discussões sobre o mercado global de carbono, o Brasil aproveitou o momento e aprovou no Congresso Nacional o projeto de lei do tão aguardado mercado brasileiro de emissões.  O papel do setor privado O atingimento das metas brasileiras dependerá do esforço conjunto e da colaboração entre governo e setor privado, com a elaboração de políticas públicas e a discussão de ações e metas por setor da economia brasileira. Os dados de 2023 mostraram que 46% das emissões brutas do país em 2023 vieram de mudanças no uso da terra. Outros 28% vieram da agropecuária, 18% do setor de energia e 4% dos resíduos. Temas como investimentos e financiamento de iniciativas de baixo carbono, combinadas ao desenvolvimento de uma Taxonomia Sustentável Brasileira que assegure regras claras e a confiança nos projetos, ganham mais força. O país tem a oportunidade de construir um mercado de carbono robusto, demonstrar sua história de sucesso em energias renováveis e investir em projetos ligados à bioeconomia. Aliás, transparência é a palavra de ordem. Conforme já mencionamos no blog, o Brasil, por meio da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), foi um dos primeiros mercados a regular, em 2023, a adoção local das normas contábeis IFRS 1 e IFRS 2 pelas companhias listadas no país. Em setembro de 2024, o número de jurisdições que já incluíam em suas leis e regulamentações o uso do relatório climático baseado nas orientações da ISSB chegava a 30. Esses países representam 57% do PIB mundial, 40% do mercado de capitais e mais da metade das emissões globais.  Durante a COP29, outros atores importantes no processo de relato anunciaram novas colaborações e acordos de interoperabilidade. A GRI assinou com o CDP (Carbon Disclosure Project) um memorando de entendimentos para aumentar o acesso a dados comparáveis dos dois relatos, construindo um mapa de equivalência entre o questionário do CDP e os tópicos da GRI para mudanças climáticas, água e biodiversidade.  Para as empresas europeias ou aquelas que de alguma forma estão submetidas às normas ESRS, as notícias também foram animadoras quanto à simplificação e otimização dos processos. A EFRAG, órgão europeu responsável pelo desenvolvimento das normas, anunciou que há extensa interoperabilidade do ESRS E1 com o questionário do CDP e que um mapa será publicado no início de 2025. Já com a GRI, houve a publicação do documento oficial de interoperabilidade GRI-ESRS, disponível para download.  

O estudo "Perspectiva ESG", desenvolvido pelo time de Finanças Sustentáveis da Report, foca sua segunda edição em bioenergia e oferece aos investidores uma análise objetiva das principais empresas do setor, facilitando a compreensão e comparabilidade de sua maturidade ESG.

COP 16 Biodiversidade: Impactos, riscos e oportunidades

A biodiversidade é a nova fronteira nas discussões estratégicas de sustentabilidade.  Apesar de histórica por reunir um grande número de participantes, a COP 16, realizada em Cali, foi concluída sem que os países chegassem a um consenso sobre como serão financiados os projetos para alcançar as chamadas “metas da natureza”. Na prática, dos US$ 20 bilhões anuais que seriam alocados em um fundo global para esse fim, apenas 2% foram mobilizados no total até agora. A eliminação de US$ 500 bilhões em subsídios dos governos para atividades de impacto negativo, como desmatamento e combustíveis fósseis, ficou à margem das discussões. Continua também o impasse sobre a governança dos instrumentos multilaterais de financiamento. Os países em desenvolvimento demandam mais poder de decisão sobre a utilização dos recursos, compatível com o volume de biodiversidade que concentram em seus territórios. Entre as boas notícias, porém, esteve a garantia da participação permanente de indígenas e comunidades locais na convenção, além do reconhecimento da importância dos saberes tradicionais da população afrodescendente. A criação do Fundo Cali, mecanismo multilateral que vai receber os pagamentos da repartição de lucros obtidos com o uso do sequenciamento digital do “DNA da natureza”, irá destinar a essas comunidades metade dos recursos arrecadados, pelos seus serviços de conservação e conhecimento. Os oceanos também ganharam mais mecanismos de proteção, com a classificação de novas áreas marinhas como ecologicamente significativas e, portanto, incluídas nas metas de preservação até 2030. O chamado para as empresas Mesmo com a diplomacia ainda patinando, aumentaram consideravelmente as expectativas dos stakeholders para que as empresas revisitem a gestão dos negócios, assumindo compromissos e demonstrando com transparência suas práticas de proteção e restauração dos ecossistemas, bem como o uso sustentável dos recursos naturais terrestres e marinhos. Não há caminho possível e confiável para o net zero sem a natureza. Afinal,  mudanças climáticas e biodiversidade são interdependentes e ambas requerem a aceleração de iniciativas para atingir tanto as metas do Acordo de Paris quanto as do Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal. “Assim como as mudanças climáticas ganharam um caráter universal e transversal, a biodiversidade vai assumindo o papel de co-protagonista na mudança das relações entre a humanidade e o meio ambiente. As empresas estão conclamadas a contribuir para o atingimento dessas metas globais, além de incorporar a natureza na gestão de riscos financeiros”, avalia Renata Vallim, consultora de sustentabilidade do Grupo Report. Além dos impactos externos dos negócios na perda de biodiversidade, é cada vez maior o reconhecimento de que a resiliência dos ecossistemas também é um fator de risco financeiro. Por isso, GRI, TNFD, ISSB e o CDP estão trabalhando em conjunto para desenvolver normas e estruturas que atendam à demanda de relato de forma eficiente, simples e, principalmente, com sinergia. Como relatar a biodiversidade? 1. Aplique a dupla materialidade Identifique tanto os impactos positivos e negativos dos negócios na biodiversidade quanto os riscos financeiros e oportunidades aos quais a empresa está exposta com relação ao tema. Assim, você estabelece os fundamentos para o processo de relato. 2. Comece com o GRI Adote desde já o novo caderno GRI 101: Biodiversidade, lançado no início de 2024, com adoção obrigatória a partir de 2026. Ele substitui o documento anterior GRI 304-1 de 2016, com novos indicadores, maior abrangência e complexidade. Ele ajuda a entender quais decisões e práticas de negócios levam à perda de biodiversidade, onde esses impactos acontecem na cadeia de valor e como eles podem ser gerenciados. Dada a importância da América Latina para a biodiversidade, a GRI lançou durante a COP 16 as versões em português e espanhol da nova norma. 3. Complemente com o TNFD Uma vez aplicada a perspectiva do GRI, complemente o relato com as recomendações da TNFD, a Força-Tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza, lançadas em 2023. Ela orienta o mapeamento das dependências e dos riscos e oportunidades relacionados à biodiversidade que impactam a materialidade financeira da empresa.  Em 2024, a TNFD publicou o mapa da sua interoperabilidade com as normas GRI.  Durante a COP 16, a força-tarefa divulgou para consulta pública a primeira proposta de recomendações para a elaboração dos planos de transição em biodiversidade, nos mesmos moldes do que vem sendo adotado para as mudanças climáticas. Elaborado em conjunto com a Aliança Financeira de Glasgow para o Net Zero (GFANZ) e outros parceiros, o documento propõe as metas, ações, medidas de responsabilização e recursos que as empresas devem priorizar para alinhar seus esforços com as metas globais e relatá-los da melhor forma. 4. Prepare-se para a futura IFRS S3 Tanto a GRI quanto a TNFD estão colaborando estreitamente com o International Sustainability Standards Board (ISSB) no projeto de pesquisa sobre biodiversidade e ecossistemas. A expectativa é de que os aprendizados e experiências sejam utilizados na elaboração das futuras normas de contabilidade IFRS S3, que tratará dos riscos financeiros relacionados à biodiversidade. 5. A contribuição do CDP A TNFD e o CDP assinaram um acordo de colaboração para o alinhamento dos dados coletados pelas duas iniciativas, com a incorporação total das recomendações da TNFD na plataforma do CDP. Mais de um terço das empresas que utilizam o CDP já divulgam informações relacionadas à natureza, como o uso da água. No entanto, apenas 10% delas já mapearam suas dependências em biodiversidade.

CBAM: Regulamentação europeia define novas exigências para emissões de carbono em importações e impacta a cadeia de fornecimento global

CBAM: a precificação do carbono nas importações da União Europeia

Regulamentação europeia define novas exigências para emissões de carbono em importações e impacta a cadeia de fornecimento global. Além dos preparativos para o relato de ESG de acordo com as normas ESRS, as empresas também precisam ficar atentas a outras mudanças em andamento na União Europeia, reunidas no Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM). A regulamentação traz novos desafios para a jornada climática de empresas europeias que importam de outras regiões e, por consequência, para seus fornecedores, que precisarão informar com regularidade a pegada de carbono de seus produtos. Previsto no regulamento UE 2023/956, o “mecanismo de ajuste de carbono na fronteira” define um preço a ser cobrado pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE) de determinados produtos intensivos em energia e que são importados de países com regulamentações consideradas menos rígidas pela Comissão Europeia. Com isso, o bloco econômico espera evitar a “fuga” ou “vazamento” de carbono, ou seja, que empresas transfiram suas atividades produtivas para países sem regulamentação ou com padrões inconsistentes com os da União Europeia — que possui sistema interno de precificação de carbono —, ou ainda que produtos europeus sejam substituídos por importados com maior intensidade de carbono. De forma mais ampla, o mecanismo pretende também incentivar uma produção industrial mais limpa em países não-membros. A ferramenta foi elaborada em compatibilidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OTC).  O novo regime entrará definitivamente em vigor a partir de 1° de janeiro de 2026. A partir dessa data, os importadores na União Europeia sujeitos ao CBAM deverão estar devidamente registrados nos órgãos competentes, declarar as emissões dos produtos adquiridos e comprar os certificados de carbono equivalentes. O preço será calculado com base na média semanal do leilão dos créditos de carbono europeus (EU ETS Allowances), expressos em € por tonelada emitida de CO2. Caso o importador possa demonstrar que o preço sobre o carbono já foi pago durante o processo produtivo, o valor correspondente poderá ser deduzido. Vale lembrar que o Brasil ainda não possui mercado regulado de carbono e opera os créditos em bases voluntárias no Mercado Brasileiro de Redução de Emissões. O projeto para um Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa está em discussão no Poder Legislativo. Fase de transição Em 1° de outubro de 2023, a aplicação do CBAM entrou em fase transitória que segue até o final de 2025 para garantir a implementação gradual, cuidadosa e proporcional para todas as empresas, sejam elas europeias ou não, assim como para os órgãos públicos envolvidos. Trata-se de um piloto para o aprendizado de todos os stakeholders e a captura de informações para refinar a metodologia. Os setores selecionados para essa fase inicial, devido à alta intensidade de suas emissões, são: Cimento Ferro e aço Alumínio Fertilizantes Eletricidade Hidrogênio  Durante esse período, as empresas importadoras terão que relatar trimestralmente as emissões de carbono incorporadas aos bens que adquiriram (emissões diretas e indiretas), mas sem a necessidade de comprar ou utilizar certificados. Até o final de 2024, há três opções para elaborar o relato: já de acordo com a nova metodologia da União Europeia (EU 2023/1773), utilizando regimes equivalentes de precificação de carbono ou ainda métodos para cálculo de  estimativas (apenas até julho de 2024).  A partir de janeiro de 2025, apenas a metodologia europeia poderá ser utilizada, sem a flexibilidade de utilizar métodos alternativos que não ofereçam precisão ou cobertura equivalente às regras do CBAM. No entanto, há exceções que permitem estimativas caso o montante não ultrapasse 20% do total das emissões apuradas. O relatório deverá ser enviado ao Registro Transitório do CBAM, cujo link só está disponível para os importadores que se registraram na autoridade competente do país-membro onde está estabelecido. A verificação por terceiros não é obrigatória, mas é recomendada para garantir precisão e deve ser informada no relatório. No fim da fase transitória, a verificação será necessária para conformidade. Como podemos ajudar? A Report possui uma equipe de especialistas em jornada climática que auxilia as empresas a se adaptarem às novas exigências de uma economia de baixo carbono. Se sua empresa tem relações comerciais com a  União Europeia, podemos apoiá-lo na preparação e implementação da metodologia de monitoramento, garantindo que os relatos atendam aos requisitos do CBAM e utilizem corretamente os dados de emissões para os relatórios trimestrais exigidos. Entre em contato conosco.  

Comunicação ESG - Reputação das empresas passa pela construção de narrativas alinhadas aos parâmetros globais que direcionam o desenvolvimento sustentável

Comunicação ESG: conhecimento em sustentabilidade é chave para o sucesso

Reputação das empresas passa pela construção de narrativas alinhadas aos parâmetros globais que direcionam o desenvolvimento sustentável Por Flávia Ragazzo Sabemos que a comunicação é um dos alicerces da estratégia ESG das empresas, já que transparência, diálogo e engajamento são alguns de seus aspectos fundamentais. É a comunicação que torna possível informar, envolver e garantir o comprometimento de diferentes stakeholders aos pilares que orientam a atuação de uma organização. O alinhamento dos times internos aos temas ligados à sustentabilidade, por exemplo, é chave não só para uma cultura organizacional coesa, mas também para o crescimento do negócio. Também investidores, clientes, consumidores, fornecedores e, em última instância, toda a sociedade, devem ter acesso a uma comunicação clara, acessível e atualizada sobre o que uma empresa faz para estar alinhada aos princípios do desenvolvimento sustentável. Assim, um planejamento de comunicação é o primeiro passo para que a estratégia de sustentabilidade alcance e engaje diferentes públicos. Para que a visibilidade seja segura, no entanto, é preciso que comunicadores estejam alinhados às diretrizes, regulamentações e movimentações que orientam o desenvolvimento sustentável em todo o mundo. Princípios da comunicação ESG como exatidão, clareza, completude, contexto e verificabilidade devem ser a base de todo o planejamento para que não se incorra em riscos reputacionais como o greenwashing. Antes de começar a planejar, é preciso realizar uma investigação  profunda sobre a origem, a execução das iniciativas, as normas vigentes e o cenário setorial e geral. Na metodologia desenvolvida pela Report, analisamos de que maneira os temas materiais do negócio ou do setor se desdobram no planejamento estratégico da organização. Também conduzimos checklists táticos de impacto (concretude e confiabilidade das iniciativas), alinhamento (envolvimento de stakeholders e consistência com a atividade da empresa) e mensagem (identificando dubiedades e incoerências) para uma avaliação robusta do risco reputacional associado aos washings. O planejamento segue com a definição de um mapa de stakeholders a partir dos temas materiais e sua priorização para cada grupo, além de uma análise SWOT com visão de sustentabilidade para desenvolvimento dos caminhos táticos. Um banco de dados ESG é criado para uso dos times ao longo do tempo, assim como mensagens-chave e um posicionamento sólido que preparam a comunicação inclusive em relação a problemas e contradições do negócio. Trata-se de um processo que exige olhar abrangente e informado para comunicar aspectos ESG com segurança e livre de riscos reputacionais para todos os stakeholders.

ESRS: como funcionarão as novas normas de relato de sustentabilidade da União Europeia

ESRS: como funcionarão as novas normas de relato de sustentabilidade da União Europeia

Apresentado pela primeira vez no final de 2019, o “Green Deal” é um ambicioso plano da União Europeia para tornar a economia do bloco sustentável. A visão é que a Europa zere suas emissões de gases de efeito estufa e seja o primeiro continente “climate-neutral” do mundo até 2050. Para chegar lá, uma série de políticas vem sendo delineada, e a mobilização de recursos financeiros públicos e privados é fundamental. Por isso, em janeiro de 2023, entrou em vigor a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), que estabelece novas regras para a divulgação de informações de sustentabilidade pelas companhias. O documento faz emendas às demais diretivas que já existiam na região sobre práticas de contabilidade, auditoria e transparência. A CSRD faz parte dos esforços para garantir que os stakeholders tenham acesso a informações relevantes sobre os impactos das empresas na sociedade e no meio ambiente e, ao mesmo tempo, que os investidores conheçam os riscos financeiros e as oportunidades relacionadas às mudanças climáticas e a outros temas materiais em sustentabilidade. De acordo com a lei, todas as grandes empresas e todas aquelas com títulos negociados no mercado europeu (exceto as microempresas) deverão preparar seu relato anual de sustentabilidade. Empresas não europeias também deverão relatar caso gerem negócios de mais de 150 milhões de euros no mercado europeu. Como se adequar à nova legislação Em primeiro lugar, é fundamental aprofundar-se sobre as regras e determinar se sua empresa se enquadra nos requisitos da diretiva e qual o nível de aplicação necessário. Procure as áreas jurídica e/ou de compliance para guiá-lo quanto ao procedimento correto. As normas ESRS (European Sustainability Reporting Standards) constituem a ferramenta fundamental e obrigatória para o relato de sustentabilidade. Desenvolvidas pelo EFRAG (European Financial Reporting Advisory Group), órgão consultivo do bloco europeu, elas possuem interoperabilidade com as normas IFRS S1 e S2, além do GRI. O prazo de adequação varia de acordo com o porte e a complexidade da organização. Por exemplo, as grandes empresas e holdings com títulos negociados na União Europeia e que possuem mais de 500 funcionários já deverão publicar seu primeiro relato em 2025, para o ano-fiscal iniciado a partir de 1° de janeiro de 2024. Já no caso das subsidiárias ou escritórios de empresas não europeias que se encaixam nos critérios da CSRD, esse prazo passa a ser 2029 (para o ano-fiscal de 2028). De modo geral, o relato sob as normas ESRS deve fazer parte do relatório da administração. O prazo pode variar de 4 a 12 meses do término do ano fiscal, dependendo de se a empresa tem ou não títulos negociados na União Europeia. Há exceções para essa exigência, como empresas controladoras ou holdings não europeias que não se enquadram na diretiva da CSRD, mas cujas subsidiárias ou filiais têm negócios relevantes no bloco europeu. Essas empresas podem optar por publicar voluntariamente a versão completa do ESRS com dados consolidados de suas subsidiárias e, nesse caso, a publicação pode ser feita separadamente do relatório da administração. Assim, as subsidiárias em solo europeu eventualmente impactadas pela CSRD ficam, então, isentas de apresentarem seu relato individual. Em todos os casos, porém, a auditoria é obrigatória. Estrutura das normas ESRS As normas estão divididas em três categorias: padrões transversais, temáticos e setoriais. •Transversais: o ESRS-1 contém as orientações gerais para a preparação e a apresentação das informações de sustentabilidade. O processo tem início com um estudo de dupla materialidade. Já o ESRS-2 reúne os requisitos de divulgação obrigatória em áreas como governança, estratégia, impactos, gestão de riscos e oportunidades, além de acompanhamento de métricas e metas. •Temáticos: são aqueles relacionados aos tópicos materiais nas esferas ambiental, social e de governança, dentre os 10 grandes temas potenciais apresentados na norma. Esses, por sua vez, são divididos em subtópicos, para aprofundar a coleta e a divulgação dos dados. • Setoriais: os suplementos setoriais ainda estão em desenvolvimento. Fase de transição Outra característica importante do ESRS é a introdução de informações sobre a cadeia de valor. Dada a complexidade de coletar e consolidar esses dados, a EFRAG estabeleceu regras para um período de transição de três anos para as empresas se adaptarem a esse requisito obrigatório da norma. No entanto, as empresas cujo prazo de enquadramento geral à diretiva não é imediato (a partir do ano fiscal de 2024) já podem adotar medidas transitórias em seus próximos ciclos anuais de relato de sustentabilidade. Confira as recomendações da Report: •Ano 0: por onde começar? Conduza uma análise de dupla materialidade em linha com as diretrizes ESRS. Este é o ponto de partida para o processo de relato e a identificação dos temas materiais. •Ano 1: utilize o que você já tem. Fique atento aos Requisitos Mínimos de Relato (ou MDR, Minimum Disclosure Requirements) e use a interoperabilidade do ESRS com as normas GRI, IFRS 1 e IFRS 2, e SASB, aproveitando as coletas que sua empresa potencialmente já faz desses indicadores. •Ano 2: como avançar. No segundo ciclo, parta para a coleta dos dados adicionais que não são cobertos pela interoperabilidade com outras normas. •Ano 3: para atender totalmente à ESRS. Elabore um plano estratégico de governança e gestão para atender, até no máximo o quarto ano de vigência da CSRD, as divulgações exigidas pela União Europeia, especialmente aquelas relacionadas à cadeia de valor.

Rolar para cima