26 de junho de 2026

Normas IFRS S1 e S2: a CVM recuou (por enquanto). E agora?

Empresas iniciantes, que iniciaram sua jornada agora ou que investiram na conformidade aos padrões devem avaliar o custo de voltar atrás; agenda IFRS tende a evoluir à revelia da agenda regulatória Por Guto Lobato, gerente executivo de educação na Report Quem acompanha o histórico das práticas de relato no Brasil reconhece dois movimentos nem sempre convergentes. De um lado, uma cultura de transparência voluntária, a partir dos anos 2000, com normas como as da Global Reporting Initiative (GRI). De outro lado, um movimento mais recente, que busca impor obrigações de divulgação financeira sobre sustentabilidade. Iniciativas como o Relato Integrado (<IR>) e o TCFD incentivaram esse caminho na década passada e, em 2023, a IFRS Foundation lançou as Normas IFRS S1 e S2 – que rapidamente passaram a ser adotadas em dezenas de países. O Brasil despontou como pioneiro nessa direção quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) divulgou sua Resolução 193/2023, que estabelecia prazos para companhias abertas publicarem relatórios baseados nas Normas IFRS S1 e S2. Entretanto, no apagar das luzes de maio, a CVM publicou a Resolução 244, que removeu o caráter mandatório desse processo. Na prática, quem se comprometeu no período de adesão voluntária deve seguir publicando por alguns anos; quem não começou não precisaria, por ora, se aventurar. Bastaria aplicar um “Pratique ou Explique” e justificar, em comunicado ao mercado, a decisão de não relatar. Esse modelo, contudo, é, na prática, um fracasso. Podia até fazer sentido uma década e meia atrás, mas hoje perdeu sua razão de ser. A reviravolta da CVM tomou muitos auditores, entidades da área contábil, consultorias e empresas de surpresa. A reação foi imediata: entidades como Conselho Federal de Contabilidade, IBFC e ANEFAC enviaram carta conjunta expressando preocupação à CVM. Organizações de mercado, como a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), afirmaram ver o recuo com preocupação; organizações da sociedade civil anunciaram que irão entrar com processo para revisar a nova resolução; e, questionada por veículos de mídia, a CVM se defendeu quanto à decisão, enquanto seu novo presidente diz estar aberto a discutir o tema outra vez no Colegiado do órgão. O próprio governo federal pressiona por uma reavaliação da medida. Mais recentemente, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) propôs um modelo de “convergência gradual assistida”, adiando por dois anos as obrigatoriedades, sem eliminar as exigências (que passariam a valer em 2028). A ideia do Conselho é “equilibrar o tempo necessário para adaptação das empresas com a necessidade de preservar a comparabilidade das informações e a credibilidade do mercado de capitais brasileiro.”. Mesmo sob escrutínio público, a revogação da obrigatoriedade deixa muitas companhias tentadas a tomar decisões de forma imediata. Seguir, voluntariamente, uma trilha de aprofundamento no disclosure climático e de sustentabilidade com viés financeiro ou apostar que o mercado não abraçará esta causa naturalmente? Não é uma escolha simples. E há ao menos três aspectos a considerar para tomar decisões de forma ponderada: a relevância e usabilidade da informação; as regulações que seguem ativas; e o desperdício de recursos que significa voltar atrás. Três pontos a considerar na hora de investir na jornada IFRS 1 – O primeiro ponto a ser ponderado na hora de decidir trilhar ou não uma jornada IFRS é a pertinência da informação desses relatos para quem toma decisões sobre seu negócio. O movimento de práticas reguladas de relato tem público-alvo claro: o mercado financeiro. Se nos relatos tradicionais a perspectiva tende a ser multistakeholder, nas divulgações de risco e oportunidade o foco é a necessidade do provedor de capital: investidor, acionista, fundos, instituições financeiras, credores. Coloque-se no lugar de quem decide em que empresa vale mais a pena alocar dinheiro. Riscos climáticos, hoje, podem ser omitidos ou divulgados superficialmente por uma companhia listada, como se não pudessem afetar as Demonstrações Financeiras? Na subscrição ou na concessão de crédito, seguradoras e bancos podem, hoje, ignorar questões ESG em um grande projeto de infraestrutura? Parece difícil haver espaço para recuos. 2- O segundo ponto a considerar: muitas regulações seguem ativas pelo mundo e, direta ou indiretamente, já afetam as relações comerciais e de controle acionário da maioria das empresas. No próprio Brasil, inclusive, há outras regras: se a da CVM está por ora suspensa, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional mantêm a Resolução CMN nº 5.185, que define compromisso para todas as empresas sob sua regulação reportarem com base nas Normas IFRS S1 e S2. O universo potencial total estimado pode envolver mais de 1,4 mil instituições autorizadas pelo Banco Central, com diferentes horizontes de tempo. Além dos países com regulações IFRS, há a Diretiva CSRD da União Europeia, cujas Normas ESRS exigem o reporte de questões de sustentabilidade na cadeia de valor. Ou seja: para quem negocia com companhias no exterior ou tem investidores de outras jurisdições, a pressão por informação financeira de sustentabilidade se mantém. Setores como mineração, petróleo e gás, siderurgia e agropecuário não têm escapatória: são provedores de matérias-primas e insumos críticos e, por força da relação comercial, serão cobrados a divulgar dados. 3- O terceiro ponto se liga ao investimento de tempo e recursos até aqui. Aderir ou não aos padrões IFRS não é para muitos uma escolha, e sim um processo já em andamento – cabe avaliar se o investimento até aqui será ou não aproveitado. A implantação de uma linguagem contábil de sustentabilidade grande desafio da jornada rumo à S1 e à S2; empresas de diferentes setores vêm ajustando processos internos, pondo em diálogo áreas de Sustentabilidade, Riscos e Finanças, repensando suas divulgações e instituindo novos comitês e processos de governança. A atitude pioneira da CVM, embora por enquanto neutralizada pela Resolução 244/2026, já induziu mudanças no mercado. Consultorias, auditorias e profissionais se prepararam, áreas inteiras foram estruturadas para o atendimento aos padrões. Profissionais de contabilidade e ESG têm se sentado juntos à mesma mesa de reunião. Cabe parar esse amadurecimento por conta da suspensão de uma das regulações? Independentemente das idas e voltas que sempre ocorreram na agenda de relato do

O armário que a sustentabilidade esqueceu

Estudo mostra que roupas guardadas por anos podem ser pouco usadas e que medir apenas a durabilidade das peças não basta para reduzir o impacto ambiental da moda Há um ponto cego recorrente nas discussões sobre moda sustentável. Fala-se muito sobre fibras recicladas, rastreabilidade, logística reversa, design circular e destino dos resíduos. Fala-se menos sobre o que acontece depois que a roupa entra no armário e, sobretudo, sobre quantas vezes ela de fato é usada. Um estudo recente conduzido por pesquisadores da KU Leuven e da Universidade de Utrecht ajuda a iluminar essa zona pouco examinada da sustentabilidade têxtil. A pesquisa analisou guarda-roupas de adultos na Flandres, região norte da Bélgica, por meio de visitas presenciais às casas dos participantes. Em vez de trabalhar apenas com declarações genéricas de consumo, os pesquisadores fizeram auditorias dos armários e coletaram informações sobre diferentes tipos de peças, ocasiões de uso, tempo de permanência, frequência de uso e lavagens. O resultado é um retrato incômodo para qualquer leitura simplista sobre consumo consciente. Em média, os guarda-roupas analisados continham 199 peças. Desse total, 27% não haviam sido usadas nos 12 meses anteriores. Apenas 5% eram peças de segunda mão. As mulheres tinham, em média, guarda-roupas maiores que os homens, 235 peças contra 158, mas a proporção de roupas paradas era semelhante entre os gêneros. A ilusão da gaveta cheia O dado mais relevante, porém, não está apenas no tamanho dos armários. Está na diferença entre possuir, guardar e usar. Segundo o estudo, uma peça é mantida, em média, por cinco anos. À primeira vista, esse número poderia sugerir uma relação relativamente duradoura entre consumidores e roupas. Mas a duração em anos esconde uma realidade mais complexa: a intensidade de uso varia enormemente conforme o tipo de peça e a ocasião para a qual ela foi comprada. Uma camiseta informal, por exemplo, é mantida por cerca de quatro anos, usada 33 vezes e lavada 18 vezes ao longo de sua vida útil. Já uma camiseta destinada a ocasiões formais permanece no guarda-roupa por cinco anos, mas é usada apenas nove vezes e lavada seis. Um casaco informal pode ser guardado por cinco anos e usado 136 vezes, embora quase nunca seja lavado. A distinção é decisiva. Uma roupa que dura muito tempo no armário não necessariamente presta muito serviço. Ela pode apenas ocupar espaço. Para avaliar o impacto ambiental de uma peça, portanto, não basta perguntar por quanto tempo ela existe. É preciso perguntar quantas vezes ela substituiu a necessidade de outra peça, quantas ocasiões de uso entregou e com que intensidade demandou lavagem, energia, água e produtos químicos. O limite das soluções verdes Esse ponto é especialmente importante porque parte significativa da agenda de sustentabilidade da moda ainda se apoia em soluções centradas no produto: melhorar materiais, aumentar durabilidade, facilitar reciclagem, ampliar a coleta de resíduos. Todas são frentes relevantes. Mas o estudo lembra que seus benefícios ambientais dependem de uma condição frequentemente ignorada: a redução dos volumes de produção e consumo. Uma roupa mais durável, se pouco usada, pode não resolver o problema. Uma peça de segunda mão, se comprada por impulso e abandonada no armário, também não. A circularidade, nesse caso, corre o risco de funcionar como uma camada de verniz sobre o mesmo padrão de excesso. A pesquisa mostra que a ocasião de uso é um fator central. Roupas formais são, em geral, muito menos utilizadas ao longo da vida útil. Vestidos formais aparecem entre os itens de menor intensidade de uso. Blazers e peças de alfaiataria também tendem a passar por poucos ciclos de uso e lavagem. Isso não significa que sejam irrelevantes. Significa que cumprem uma função social específica, muitas vezes associada a eventos raros, códigos profissionais ou expectativas de apresentação pessoal. É justamente aí que o debate ganha densidade. Se determinadas roupas são necessárias, mas usadas poucas vezes, talvez a solução não seja apenas fabricar versões “mais sustentáveis” dessas peças. Em alguns casos, pode fazer mais sentido discutir modelos de compartilhamento, aluguel, guarda-roupas coletivos, revenda qualificada ou serviços que reduzam a necessidade de propriedade individual. Mas o próprio estudo recomenda cautela. A reutilização só gera benefício ambiental se, de fato, aumentar o número de usos por peça e evitar novas compras. Se o mercado de segunda mão se tornar apenas mais uma via de consumo, sem reduzir o volume total de roupas adquiridas, seu potencial climático e ambiental diminui. Os diferentes ritmos do consumo Outro achado relevante é a existência de grandes diferenças entre grupos. Homens e pessoas mais velhas, em média, usaram suas roupas com maior intensidade. No agregado por participante, a mediana geral foi de 35 usos por peça. Entre homens, chegou a 45; entre mulheres, ficou em 25. No grupo acima de 55 anos, a mediana foi de 48 usos, acima dos grupos mais jovens. Essas diferenças não devem ser lidas de forma moralista. Elas apontam para comportamentos, pressões sociais e contextos de consumo distintos. A moda não é apenas cobertura corporal. É identidade, pertencimento, trabalho, gênero, desejo, status e convenção. Uma política eficaz para reduzir impactos precisa lidar com essa complexidade, em vez de partir da ideia ingênua de que bastaria informar melhor o consumidor. O estudo também chama atenção para a lavagem. Em média, os participantes relataram lavar as roupas após três usos. Peças usadas junto ao corpo, como camisetas e blusas, são lavadas com maior frequência. Casacos, por outro lado, podem ser usados dezenas de vezes antes de uma lavagem, quando são lavados. Como a fase de uso pode envolver consumo de água, energia e químicos, os ciclos de lavagem são parte importante da avaliação ambiental. Ainda assim, eles não servem como métrica universal: um casaco pouco lavado pode ser muito usado, enquanto uma peça formal pouco lavada pode ter sido simplesmente pouco vestida. A principal contribuição do estudo está em recusar uma única métrica. Tempo de posse, número de usos e ciclos de lavagem contam histórias diferentes. Só quando analisados em conjunto ajudam a entender o papel real de uma roupa

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