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O armário que a sustentabilidade esqueceu

O armário que a sustentabilidade esqueceu

Estudo mostra que roupas guardadas por anos podem ser pouco usadas e que medir apenas a durabilidade das peças não basta para reduzir o impacto ambiental da moda

Há um ponto cego recorrente nas discussões sobre moda sustentável. Fala-se muito sobre fibras recicladas, rastreabilidade, logística reversa, design circular e destino dos resíduos. Fala-se menos sobre o que acontece depois que a roupa entra no armário e, sobretudo, sobre quantas vezes ela de fato é usada.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores da KU Leuven e da Universidade de Utrecht ajuda a iluminar essa zona pouco examinada da sustentabilidade têxtil. A pesquisa analisou guarda-roupas de adultos na Flandres, região norte da Bélgica, por meio de visitas presenciais às casas dos participantes. Em vez de trabalhar apenas com declarações genéricas de consumo, os pesquisadores fizeram auditorias dos armários e coletaram informações sobre diferentes tipos de peças, ocasiões de uso, tempo de permanência, frequência de uso e lavagens.

O resultado é um retrato incômodo para qualquer leitura simplista sobre consumo consciente. Em média, os guarda-roupas analisados continham 199 peças. Desse total, 27% não haviam sido usadas nos 12 meses anteriores. Apenas 5% eram peças de segunda mão. As mulheres tinham, em média, guarda-roupas maiores que os homens, 235 peças contra 158, mas a proporção de roupas paradas era semelhante entre os gêneros.

A ilusão da gaveta cheia

O dado mais relevante, porém, não está apenas no tamanho dos armários. Está na diferença entre possuir, guardar e usar.

Segundo o estudo, uma peça é mantida, em média, por cinco anos. À primeira vista, esse número poderia sugerir uma relação relativamente duradoura entre consumidores e roupas. Mas a duração em anos esconde uma realidade mais complexa: a intensidade de uso varia enormemente conforme o tipo de peça e a ocasião para a qual ela foi comprada.

Uma camiseta informal, por exemplo, é mantida por cerca de quatro anos, usada 33 vezes e lavada 18 vezes ao longo de sua vida útil. Já uma camiseta destinada a ocasiões formais permanece no guarda-roupa por cinco anos, mas é usada apenas nove vezes e lavada seis. Um casaco informal pode ser guardado por cinco anos e usado 136 vezes, embora quase nunca seja lavado.

A distinção é decisiva. Uma roupa que dura muito tempo no armário não necessariamente presta muito serviço. Ela pode apenas ocupar espaço. Para avaliar o impacto ambiental de uma peça, portanto, não basta perguntar por quanto tempo ela existe. É preciso perguntar quantas vezes ela substituiu a necessidade de outra peça, quantas ocasiões de uso entregou e com que intensidade demandou lavagem, energia, água e produtos químicos.

O limite das soluções verdes

Esse ponto é especialmente importante porque parte significativa da agenda de sustentabilidade da moda ainda se apoia em soluções centradas no produto: melhorar materiais, aumentar durabilidade, facilitar reciclagem, ampliar a coleta de resíduos. Todas são frentes relevantes. Mas o estudo lembra que seus benefícios ambientais dependem de uma condição frequentemente ignorada: a redução dos volumes de produção e consumo.

Uma roupa mais durável, se pouco usada, pode não resolver o problema. Uma peça de segunda mão, se comprada por impulso e abandonada no armário, também não. A circularidade, nesse caso, corre o risco de funcionar como uma camada de verniz sobre o mesmo padrão de excesso.

A pesquisa mostra que a ocasião de uso é um fator central. Roupas formais são, em geral, muito menos utilizadas ao longo da vida útil. Vestidos formais aparecem entre os itens de menor intensidade de uso. Blazers e peças de alfaiataria também tendem a passar por poucos ciclos de uso e lavagem. Isso não significa que sejam irrelevantes. Significa que cumprem uma função social específica, muitas vezes associada a eventos raros, códigos profissionais ou expectativas de apresentação pessoal.

É justamente aí que o debate ganha densidade. Se determinadas roupas são necessárias, mas usadas poucas vezes, talvez a solução não seja apenas fabricar versões “mais sustentáveis” dessas peças. Em alguns casos, pode fazer mais sentido discutir modelos de compartilhamento, aluguel, guarda-roupas coletivos, revenda qualificada ou serviços que reduzam a necessidade de propriedade individual.

Mas o próprio estudo recomenda cautela. A reutilização só gera benefício ambiental se, de fato, aumentar o número de usos por peça e evitar novas compras. Se o mercado de segunda mão se tornar apenas mais uma via de consumo, sem reduzir o volume total de roupas adquiridas, seu potencial climático e ambiental diminui.

Os diferentes ritmos do consumo

Outro achado relevante é a existência de grandes diferenças entre grupos. Homens e pessoas mais velhas, em média, usaram suas roupas com maior intensidade. No agregado por participante, a mediana geral foi de 35 usos por peça. Entre homens, chegou a 45; entre mulheres, ficou em 25. No grupo acima de 55 anos, a mediana foi de 48 usos, acima dos grupos mais jovens.

Essas diferenças não devem ser lidas de forma moralista. Elas apontam para comportamentos, pressões sociais e contextos de consumo distintos. A moda não é apenas cobertura corporal. É identidade, pertencimento, trabalho, gênero, desejo, status e convenção. Uma política eficaz para reduzir impactos precisa lidar com essa complexidade, em vez de partir da ideia ingênua de que bastaria informar melhor o consumidor.

O estudo também chama atenção para a lavagem. Em média, os participantes relataram lavar as roupas após três usos. Peças usadas junto ao corpo, como camisetas e blusas, são lavadas com maior frequência. Casacos, por outro lado, podem ser usados dezenas de vezes antes de uma lavagem, quando são lavados. Como a fase de uso pode envolver consumo de água, energia e químicos, os ciclos de lavagem são parte importante da avaliação ambiental. Ainda assim, eles não servem como métrica universal: um casaco pouco lavado pode ser muito usado, enquanto uma peça formal pouco lavada pode ter sido simplesmente pouco vestida.

A principal contribuição do estudo está em recusar uma única métrica. Tempo de posse, número de usos e ciclos de lavagem contam histórias diferentes. Só quando analisados em conjunto ajudam a entender o papel real de uma roupa na vida cotidiana.

Retrato europeu e o desafio dos dados

Há limitações. A pesquisa foi feita na Flandres, em um contexto europeu específico, de clima temperado e alta renda. Parte dos dados depende de estimativas dos próprios participantes, o que pode introduzir vieses de memória. Além disso, o estudo captura um momento no tempo, não a evolução dos hábitos ao longo dos anos. Ainda assim, o método de visitas presenciais e auditoria dos guarda-roupas oferece uma base empírica mais concreta do que pesquisas baseadas apenas em questionários online.

Para empresas, formuladores de políticas e profissionais de sustentabilidade, a mensagem é clara: a transição para uma moda de menor impacto não será alcançada apenas com melhores produtos. Será preciso enfrentar o excesso de peças, a baixa intensidade de uso e a falsa equivalência entre guardar por muito tempo e usar bem.

O armário, afinal, é uma infraestrutura invisível da economia da moda. Ele acumula escolhas individuais, incentivos de mercado, códigos culturais e falhas de política pública. Olhar para dentro dele é menos glamouroso do que anunciar uma nova coleção circular. Mas talvez seja mais honesto.
A sustentabilidade da moda não começa nem termina na fábrica, na etiqueta ou no descarte. Ela passa pelo número de vezes que uma roupa cumpre sua função antes de ser esquecida.

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